Podem falar o que quiser! Bêbado, não paga, pede a dose ele toma um copo, compra um cigarro ele pede um. Agora, verdade seja dita: nunca vi alguém com tamanha habilidade musical para com qualquer instrumento igual Jean Trambique. Podem dar qualquer coisa na mão dele, ele tira o som com a tranquilidade de quem tira leite da vaca. Acabei de ver na rede social ele fazendo o hit da seleção brasileira no sax. Ele deve ter emprestado o instrumento de alguém, sabe? Aquele empréstimo que você não vê de volta. Habilidade nesses moldes conheci só do Cleitinho na percussão. Já citei os dois aqui em outras ocasiões... Já vi o Cleitinho tocar na caixa de Toddy, com tampa e sem tampa. Também já vi ele arrancar um som do cinzeiro com um espeto de churrasco imitando a baqueta numa caixa. Coisa de gênio, coisas pra poucos.
É preciso admirar e reconhecer os gênios que estão ao nosso redor. Millôr Fernandes uma vez disse que ser gênio não é difícil. Difícil é alguém reconhecer! Eu sou do tipo que reconhece e aplaude a genialidade que pude observar e conviver de maneira cotidiana. É bom ter ídolos por perto. Já disse para os dois que são meus ídolos: Igor The Voice e Marcelinho. Eles formam uma dupla daquelas incontestáveis. Como Aldir e João, Roberto e Erasmo. É como se um tivesse nascido pra encontrar com o outro e a existência dos dois só fizesse sentido se essa conexão ocorresse. Tenho a impressão de que os dois juntos dão sabores a vida. Na realidade eles são um trio musical, talentoso e filosófico quando soma-se com Ilsinho.
Compartilho ainda bancos de praça com meus heróis. E não só na música, tenho heróis em outros campos das artes. Na arte de viver com a poesia pulsando e com os instintos sexuais aflorados está o Doc. Doc mistura a poesia que a gente não vive com a porralouquice que ele vive aos fins de semana. Ele é ator, diretor, roteirista, poeta, professor, viado de bandeira erguida e mais uma caralhada de adjetivos que são méritos dele por tê-los. Tenho muitos outros, mas outro dia eu conto. Os envolvidos aqui estavam todos, hora espalhados, hora juntos, na praça da Faculdade de Filosofia que foi batizada como Ágora, por razões que o leitor deve imaginar. Claro, se filosofava muito por lá, daquela maneira que causa estranheza, que o estudante insiste em demonstrar crente que está abafando, colocando palavras fora do contexto para dizer que seu vocabulário é amplo. Quando misturavam filosofia com maconha, birinaite com teco, a coisa ficava calibrada.
Então todos calibrados, prontos pra começar o festival de música acústica que juntava aquela roda de pessoas em torno pra curtir o som e brincar de radinho. Aí que o Ilsinho ficava puto da vida. Chegou um qualquer lá, zé ruela pra burro, pedindo música pro The Voice cantar e pro Ilsinho bater (Cleitinho não gosta muito de ser percussionista na praça, como ele seguraria o cigarro e o copo de cerva? Escolhia os dois). O tal Zé pediu uma, pediu duas, pediu três. Não foi atendido. Até que o Ilsinho decidiu mandar a letra:
- Pô meu irmão, aqui não é radinho não!
Sururu formado eu falei malandragem.
O Zé decidiu pagar de bicho solto e foi pra cima do Ilsinho. Ninguém conhecia o Ruela e todos estavam a fim de defender seu ídolo, ainda mais no habitat natural dele, a praça de filosofia. Ao mesmo tempo, na praça, começou uma pancadaria do outro lado. Parecia um menor de idade, com a mão na cintura, depois de ter tomado aquela entrada no olho direito, simulando que ia sacar o três-oitão. Em área de malandro essa não cola. O comédia levou logo um sopapo daqui e um de lá, quando surge Jean Trambique, no meio da confusão generalizada, com seu violão cantando qualquer coisa de paz do Jonh Lennon, como um hippie contra a guerra do Vietnã. Conclusão, juventude universitária quer sempre se diferenciar da juventude nativa (que quando se trata de Jacarezinho é bastante violenta) e mostrar seus dotes diplomáticos:
- Vai beiço, pede uma aí!
O lazarento do Ilsinho mandou essa... Nossos ídolos não são perfeitos.