Estávamos todos, todos mesmo, todo mundo, no bar dois irmãos. Esse é o bar que aos domingos e feriados sede seu espaço para a velha guarda do Norte Pioneiro do Paraná botar pra quebrar na musicalidade ao vivo. Como buteco é um espaço aberto, plural, democrático e brasileiro, o público que acompanhava as canções matinais de domingo e de início de tarde era tão brasileiro como os músicos. Da mesma forma que tinha de tudo e Jacarezinho incluí o restante do mundo dentro da totalidade estavam na apreciação os músicos universitários, que sem mais delongas eram bolsistas pobres. Igor, chamado "The Voice", um dos mais magníficos cantores que conheço, Cleitinho, chamado "Cueio" um dos maiores percussionistas que eu conheço, Ilson de Oliveira, chamado "Ilsinho" um malandro afiado até demais, Marcelo Germano, chamado Marcelinho, uma das pessoas mais doces que eu conheço. Manoel, chamado Mané, gente finíssima. Pô, já falei, tava todo mundo!
Cervejas baratas eram as únicas apreciadas pelo poder aquisitivo desses jovens cabeludos em suma maioria. O único alimento que podíamos ingerir era a deliciosa salsicha em conserva, que custava 50 centavos cada, vem fatiada e com palitos Gina e se o leitor não gosta por favor, feche essa aba e não volte mais. Pra rebater, desciam rabos de galos e marias moles. Cada um tinha sua estratégia de ganhar o domingo no bar pra sair por cima. Eu encostava no idoso e levava aquele lero que fazia com que o idoso pagasse uma cerveja. Modéstia à parte, sempre cativei. Pra descer outra, bastava o The Voice abrir seu gogó na hora da pausa dos senhores. Já desciam duas, três. Marcelinho caprichava no acorde. Ilsinho caprichava no bongo e ia... "Essa daqui tá paga pra vocês!" "Aeeee!" "Toca aquela!"
Nós sempre fomos os caras que apreciavam as histórias de botequim como cronistas que um dia narrariam nossas vivências cotidianas pelos botequins mais vagabundos que Moacyr Luz e Aldir Blanc narravam na canção "Pra que pedir perdão" que recomendo muito como trilha sonora desse texto, para dar sentido maior aos fatos inegáveis que esses olhos viram antes da terra comê-los. O samba é bem didático. E samba era o que não faltava nunca nos nossos repertórios... É, preciso me retratar: nenhum de nós queria ser cronista de pomba nenhuma. A gente queria mesmo era ser malandro, ser bamba, ser sambista e ser, pasmem, reconhecidos por isso.
Cleitinho já ia pra outro tipo de malandragem, além de conhecer até os ladrilhos do bar, gostava é de arrancar uma graninha na sinuca. Ou então, arrancar um maço de Eigth pra dividir com todos os universitários que passavam em frente dele. Como ele filava de todo mundo, quando notavam que tinha um maço, só pela moldura que ficava o bolso da calça, já saíam cobrando restituição. Isso fazia com que o esforço de vencer a boa galera da terceira idade na sinuca fosse maior, pra garantir mais uns soltos. Numa dessa de sinuca, música popular, tabagismo, jogo do bicho e música sertaneja, no balcão rolava um desabafo com um dos irmãos.
- Agora ela foi de vez Serginho, de mala e tudo. Diz que não volta mais, já faz duas semanas.
Eu prestava a atenção nessa fala miúda e lamentosa, vinda de um cara já com seus 50 anos, visualmente abatido e cabisbaixo. Sabe-se que bares no Brasil tem função de recreação e também função de lamentação. É local sagrado, com suas entidades, suas lendas, seus mistérios e fantasias. Todo bar que se preze deve ser cercado de mistérios e de fantasmas, que rondam seus atuais clientes e degustadores como um espectro que sempre ronda a Europa, independente da época e até do continente. O Brasil que o diga!
Osmar cantava aquelas populares músicas sertanejas, Jânio tocava, todos acompanhavam. Já passava do meio dia, Ilsinho trocava a pele do pandeiro. Mané buscava uma Romarinho. Cleitinho mirava uma bola oito. Igor engolia a dose de rabo de galo, quando a harmonia é rompida pela ruiva. Ruiva? É leitor, uma ruiva que invadiu o bar e proferiu logo uma sentença ao miserável do balcão:
- Olha essa barba, olha esse cabelo, olha essa roupa! Você parece que está largado!
- Você largou de mim, fiquei largado...
Nunca vi um bar rir tanto, tão espontaneamente e ao mesmo tempo como nesse dia. O tempo foi perfeito, chamam de timing. Fez-se até silêncio antes da pronúncia, como aquele silêncio no estádio que antecede por milésimos de segundos o grito de gol. No entanto, ria-se de uma tragédia em que todos nós, mortais, estamos submetidos, passamos e passaremos. Como se ri de uma frase tão sincera e cruel? De uma desgraça que todos nós nos sujeitamos? É, os bares escondem esses segredos, lá também se ri da própria desgraça, como se ri da própria sorte quando se acerta uma centena. Essa foi na cabeça.