Em áreas como literatura e cinema, início, meio e fim são relevantes nem sempre para uma boa história mas para que uma história seja bem contada. No entanto, as mesas de bar - território sagrado da oralidade e profano para a oratória - subvertem a lógica. Nessas, é possível que uma interessante história ainda esteja para chegar ao seu clímax e será necessário aguardar os próximos capítulos, ou o capítulo final pode estar próximo e será necessário outra cerveja na próxima semana para saber o resultado.
Também existem, e como, histórias de mesas de bar que são frequentemente interrompidas por algum bebum inconveniente que insiste em invadir seu assunto, por algum vendedor de alguma coisa, por algum acontecimento irrelevante para a lógica social como o sexo entre dois cachorros, ou uma moto passando o pare sem parar e com o farol apagado entre diversas outras situações aptas a desviar os assuntos pela lógica brutal dos acontecimentos endurecidos do cotidiano que não passam em branco. Algumas histórias simplesmente não tem fim ou o capítulo final é desconhecido.
No bar do Paulinho, ao lado do Rodrigo sempre cabe outro conto rodriguiano. Todo mundo tem um primo de São Paulo que vêm pro interior passar as férias com pouca frequência, mas quando vêm, deixam a memória marcada. No caso dele - contava - o sujeito era um tal de Cirrose, e nem de São Paulo era, Diadema, mas nas nossas bandas falava São Paulo com ares de superioridade típica desse pessoal que se enxerga mais esperto e mais calejado com as amarguras da vida cotidiana que o povo caipira.
Bom, pelo vulgo do satanás vocês já devem fazer as mais corretas suposições. Sim, ele era daqueles jovens que tomava gasolina. E gostava de ser o primo apresentador, que desviava a trupe. Toda vez que vinha pra essas bandas trazia novidades para a molecada. Deu aula de como fumar maconha para quase todos os adolescentes que iam a noite nas praças. Aula completa mesmo, ensinou desde a cor da qualidade, métodos de produção, equipamentos modernos para o consumo e pechincha. Ensinava com propriedade e aula prática. Ensinou também a produção barata de loló e adorava cheirar cola. Dizia que era da torcida organizada e se prendia a atenção dos meninos que, babões ouvia histórias de brigas em becos escuros e estações de metrô. Aqui, na casa de sua tia, tinha uma mobilete zero bala branca, capaz de fazer inveja e provocar suspiros nas meninas quando ele passava sem capacete em frente as praças, embora nunca tenha sido sua praia fazer sucesso com elas.
- Quando o pai dele morreu, a mãe achou a agulha no palheiro. Depois de alguns anos viúva, casou com um grande empresário e praticamente abandonou os filhos que já eram desviados no mundo. Isso ajudou a provocar ainda mais revolta no Cirrose, que bebia desenfreadamente. Quando eles vinham no ano novo podia agendar que ia ter. O quebra-pau era garantido. Depois de certa hora ele ia pra rua, mesmo sem conhecer ninguém e já trombava com alguns outros desviados... Era só o começo da saga.
O Rodrigo quando começa vocês já viram.
- O cara desviou metade dos munícipes. Só ensinava o que não presta. Eu incluso, fui aluno.
- Ah, mas essa aí tá levinha. Você já contou piores.
- Levinha? Calma, ainda não cheguei. Cirrose herdou uma zona quando o irmão dele morreu.
- Tava demorando.
- Herdou, o irmão era envolvido com o meretrício. Costume de família, vinha do avô do avô. O pai já gostava mais da outra face da contravenção. Caça-níqueis, jogo-do-bicho etc. O problema foi uma cobrança entre os envolvidos e concorrentes. Contaram que era uma espécie de acordo, um empresário ia na casa noturna do outro. Consumiam e ficava tudo quite. Mas diz que um não pagou, o outro teve um ciúme, você sabe que esse povo se apaixona né?
- Sei.
- Então, já dizia o Tim Maia. Mas aí, numa dessas noites e de porre, o ciumento foi lá e meteu bala no irmão do Cirrose. Outros aí falaram que era porque aquele cabaré tava fazendo o dobro de clientes do outro, mas não é nada disso não. Aí a casa caiu no colo do Cirrose.
- E durou na mão dele?
- Durou nada. Capaz... Mas eu juro que não sei o que virou. Depois disso ele nunca mais apareceu pra cá, mas deixou um monte de discípulo por aí. A galera com certeza não esquece dele até hoje. Perguntei pro Bode, ele me disse que reza a lenda que ele está em Pirituba hoje. Nunca mais se ouviu falar no Cirrose.
- É, pelo menos você herdou a mobilete...