domingo, 19 de maio de 2024

JAPONÊS

Embalado por sons latinos, movido a álcool e pelo talento de dirigir seu UNO duas portas, onde Gustavo chega com sorriso de vitória do Santos, arrasta consigo a simpatia de outras torcidas. Provavelmente o conheci na famosa Ágora que os gregos recusariam. Essa, bem mais importante, tem filosofia peculiar, sociologia da linha malandra de Seu Zé, copos de plástico frágeis e lastimáveis circunstâncias cotidianas. Me lembro que nosso personagem se adaptou tanto com o ambiente que passava a impressão de um camaleão no habitat de sua natureza. E estava em casa. Camisa estampada e desabotoada, no pescoço um cordão de pedras, bolando paieiros com a perna cruzada de Cazuza e fazendo amigos em minutos. 

De longe, era notável sua ligação com as biroscas mais vagabundas, do copo sujo e banheiros de forte odor. Enxerguei nele uma boêmia que não se encontra, artigo que não se imita nos bares sofisticados. Quem nos apresentou foi Beatriz, sua companheira. O casal deve ter vindo da mais profunda raiz nipônico-italiana, de um encontro de outras vidas entre o Japão e a Itália, numa imigração forçada de navio destino América Portuguesa. 

Certa feita, nós todos nos encontramos numa Adega ourinhense, para depois ampliar nosso destino sentido Piraju, onde passaríamos alguns dias numa colônia italiana com cafés de alta qualidade produzidos numa cozinha brasileira, que era a própria casa de Beatriz. Que lugar!

Mas voltando para Ourinhos, uma série de doses de Uísque (assim, com título nacional) desceram quentes acompanhados de uma duvidosa batata frita e cercados ao som de Marcelo D2 procurando a batida perfeita que me fizeram bater a nave e perder a memória de tudo que houve no caminho (para um bêbado, curtíssimo) entre nossa localidade e a cidade-destino. O que me recordo na saída madrugosa é de músicos, um com bandolim e a outra com um clarinete e uma flauta divina, fazendo um choro que chamavam as entidades para acompanhar tamanha beleza, capazes de buscar quem mora longe. 

Nesse ápice de magia, acordei diante de um rio. Gustavo e João desceram do carro, tiraram a roupa e pularam, assim, da beira da estrada para recepcionar à chegada a Piraju. Jorge e Bia optaram por não se molharem no princípio de dia pirajuense. 

A mágica estava pronta. A poesia estava escrita. Antes, um jantar de Vó oriental, farto e saboroso, com direito a repeteco que o Jorge lambusou a camisa africana. Mas os anfitriões reservaram o melhor para o balcão do memorável Bar do Chumbo, onde serviram Guacamole com Doritos, doses qualitativas de Vodka com hortelã  preparadas pelo Pedro, cachaça artesanal e água colorida aos entendedores. 

Nosso nipônico abrasileirado personagem, moldado nos respingos provocados pela queda d'água de Foz do Iguaçu, fã incondicional de chá de boldo na mesa dos copos, continua conquistando posições de destaque nos pés sujos com a unha bem feitinha, abrideiras e saideras não necessariamente nessa ordem, papos cabeça sobre Gal Costa e a musicalidade caribenha, papos furados de não-monogamia e amores correspondidos, papos que valem a foz divina de Gustavo Japonês.

terça-feira, 12 de setembro de 2023

FABINHO

Ontem, depois que o sol se pôs, fui abatido pela notícia na rede social: morreu o Fabinho. Porra, que merda. Primeiro, liguei para minha mãe que recebeu a notícia com semblante de tristeza. Depois, liguei para o Paulinho, que já sabia de todo o ocorrido.

A questão é que ninguém tinha um A para falar do Fabinho que não fosse de sua voz mansa, sua altíssima educação, seu belíssimo dom para a música. Fábio era um homem doce que compartilhava sua doçura. Eu o conheci no Bar do Paulinho, falávamos de música, cinema, cultura em Marília. Me recordo vagamente do lado do balcão que estávamos quando o perguntei sobre os projetos que ele havia participado na Secretaria da Cultura e ele, sempre, conversou com entusiasmo e fineza.

Se bem me lembro, fui apresentado à ele por minha mãe ainda menor de idade, era ela que ficava do lado de trás do balcão, comandando a freguesia. Minha mãe me incentivava a conversar com pessoas que ela considerava cultas e em se tratando do Fabinho ela acertou na mosca. O problema é que ele era chegado na cachaça. Problema? Talvez. Fato é que Fabinho, mesmo quando mamava oncinha pra tombar e cair, não perdia a elegância. Não alterava o tom de voz. Um gentleman. Sem contar que um boêmio de mão cheia, conhecido nos pés sujos menos abastados de toda a cidade. Era, sobretudo, um frequentador assíduo, batedor de cartão dos bares com balcões. Pra ele, bar sem balcão para apoiar os cotovelos não era bar para cachaceiros. 

Vejo aos meus olhos passar flashs do Fabinho, principalmente dele de moto. Magicamente, nos dias em que a intimidade com a onça aumentava, a moto parecia guiar ele de volta pra casa. Enaltecer somente a moto seria uma terrível injustiça. Também ao motorista os louros, que não tirou a vida de ninguém e nem a sua, apesar da apreensão que os amigos ficavam em ver ele indo embora em insalubres condições. Quando telefonei para minha mãe, ela foi convicta: "acidente de moto, tenho certeza!"

É verdade que Fabinho nos deixou jovem. Também é verdade que fará falta na vida de muitas pessoas, mas principalmente de sua mãe. Ele era o seu grande companheiro. Ela, uma simpática e educada senhora, que já passa dos oitenta anos. Os dois viviam juntos, na mesma casa, desde que a vida os colocou como mãe e filho. Fábio saiu, na transição da adolescência para a vida adulta, foi para o Conservatório em Tatuí aprimorar seu talento nato, apoiar sorridente seu cotovelo em outros balcões, sentir o cheiro de novos cangotes. Mas depois retornou para o seguro porto que a asa amiga de sua mãe sempre lhe ofereceu. E eram bons amigos, que se divertiam, almoçavam, sorriam juntos. Quando Fabinho se perdia na cachaça, ouvia de cabeça baixa os conselhos amorosos dela.

Acho que a última vez que nos encontramos foi na casa da Thaís. Eu passava em frente, já abastecido pelo boteco da rua de cima e ela me chamou para entrar, já abastecida pelo boteco da rua de baixo. Lá estava o Chuper, Fabinho, Nene, até a Dona Zélia, lidíssima mãe, senhora e dona do lar. Conversamos um bom tempo, discussões acaloradas sobre povos indígenas e o direito deles ao território. Bíblia. Deus. História e música. Cigarros, copos americanos e bauretes. Vivemos!

Fabinho também viveu como quis (um brinde a isso) e Deus lhe concedeu um afago, por merecimento, pela sua obra, pela sua gentileza de sempre. A morte foi gentil com ele. Sonho de muitos, ela o encontrou dormindo. Na noite anterior, ele deu um beijo de boa noite em sua mãe e se deitou. Agora, o poeta está dormindo. Sonhando com um dia lindo que certamente vai raiar.

Valeu Fabinho!

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

CIRROSE GASOLINA

Em áreas como literatura e cinema, início, meio e fim são relevantes nem sempre para uma boa história mas para que uma história seja bem contada. No entanto, as mesas de bar - território sagrado da oralidade e profano para a oratória - subvertem a lógica. Nessas, é possível que uma interessante história ainda esteja para chegar ao seu clímax e será necessário aguardar os próximos capítulos, ou o capítulo final pode estar próximo e será necessário outra cerveja na próxima semana para saber o resultado. 

Também existem, e como, histórias de mesas de bar que são frequentemente interrompidas por algum bebum inconveniente que insiste em invadir seu assunto, por algum vendedor de alguma coisa, por algum acontecimento irrelevante para a lógica social como o sexo entre dois cachorros, ou uma moto passando o pare sem parar e com o farol apagado entre diversas outras situações aptas a desviar os assuntos pela lógica brutal dos acontecimentos endurecidos do cotidiano que não passam em branco. Algumas histórias simplesmente não tem fim ou o capítulo final é desconhecido.

No bar do Paulinho, ao lado do Rodrigo sempre cabe outro conto rodriguiano. Todo mundo tem um primo de São Paulo que vêm pro interior passar as férias com pouca frequência, mas quando vêm, deixam a memória marcada. No caso dele - contava - o sujeito era um tal de Cirrose, e nem de São Paulo era, Diadema, mas nas nossas bandas falava São Paulo com ares de superioridade típica desse pessoal que se enxerga mais esperto e mais calejado com as amarguras da vida cotidiana que o povo caipira. 

Bom, pelo vulgo do satanás vocês já devem fazer as mais corretas suposições. Sim, ele era daqueles jovens que tomava gasolina. E gostava de ser o primo apresentador, que desviava a trupe. Toda vez que vinha pra essas bandas trazia novidades para a molecada. Deu aula de como fumar maconha para quase todos os adolescentes que iam a noite nas praças. Aula completa mesmo, ensinou desde a cor da qualidade, métodos de produção, equipamentos modernos para o consumo e pechincha. Ensinava com propriedade e aula prática. Ensinou também a produção barata de loló e adorava cheirar cola. Dizia que era da torcida organizada e se prendia a atenção dos meninos que, babões ouvia histórias de brigas em becos escuros e estações de metrô. Aqui, na casa de sua tia, tinha uma mobilete zero bala branca, capaz de fazer inveja e provocar suspiros nas meninas quando ele passava sem capacete em frente as praças, embora nunca tenha sido sua praia fazer sucesso com elas. 

- Quando o pai dele morreu, a mãe achou a agulha no palheiro. Depois de alguns anos viúva, casou com um grande empresário e praticamente abandonou os filhos que já eram desviados no mundo. Isso ajudou a provocar ainda mais revolta no Cirrose, que bebia desenfreadamente. Quando eles vinham no ano novo podia agendar que ia ter. O quebra-pau era garantido. Depois de certa hora ele ia pra rua, mesmo sem conhecer ninguém e já trombava com alguns outros desviados... Era só o começo da saga. 

 O Rodrigo quando começa vocês já viram. 

- O cara desviou metade dos munícipes. Só ensinava o que não presta. Eu incluso, fui aluno.

- Ah, mas essa aí tá levinha. Você já contou piores.

- Levinha? Calma, ainda não cheguei. Cirrose herdou uma zona quando o irmão dele morreu.

- Tava demorando.

- Herdou, o irmão era envolvido com o meretrício. Costume de família, vinha do avô do avô. O pai já gostava mais da outra face da contravenção. Caça-níqueis, jogo-do-bicho etc. O problema foi uma cobrança entre os envolvidos e concorrentes. Contaram que era uma espécie de acordo, um empresário ia na casa noturna do outro. Consumiam e ficava tudo quite. Mas diz que um não pagou, o outro teve um ciúme, você sabe que esse povo se apaixona né?

- Sei.

- Então, já dizia o Tim Maia. Mas aí, numa dessas noites e de porre, o ciumento foi lá e meteu bala no irmão do Cirrose. Outros aí falaram que era porque aquele cabaré tava fazendo o dobro de clientes do outro, mas não é nada disso não. Aí a casa caiu no colo do Cirrose.

- E durou na mão dele?

- Durou nada. Capaz... Mas eu juro que não sei o que virou. Depois disso ele nunca mais apareceu pra cá, mas deixou um monte de discípulo por aí. A galera com certeza não esquece dele até hoje. Perguntei pro Bode, ele me disse que reza a lenda que ele está em Pirituba hoje. Nunca mais se ouviu falar no Cirrose. 

- É, pelo menos você herdou a mobilete...

domingo, 27 de agosto de 2023

SINUCA BAC BAC

Rodrigo é o coordenador da escola que trabalho, mestre na contação de histórias sobre mestres nas vivências experimentais e alternativas. Na mesa, pergunta ao Márcio se, por acaso se lembrava do Bar do Serjão, aquele lamentável e saudoso ambiente insalubre onde jovens chumbados da cabeça com todos os tipos de efeitos do produto abaixavam as portas de ferro e ficavam lá dentro consumindo com liberdade e competindo com tacos, bolas e giz. Giz de todos os tipos. Azul para a mesa e branco para os meninos. Os contos rodriguianos são sempre assim: começam fatídicos e terminam no começo. 

O craque da sinuca do estabelecimento, vencedor de doses, caixas, cigarros, conhaques, rabos de galos e ostentador dos louros com justiça era o Bac Bac. Só que a fera só funcionava com combustível e com aquele óleo no motor: misturava, separadamente, o combo conhaque-rapé-e-paieiro. Só começava a brincadeira depois de ao menos três inserções. Reza a lenda que fechou o bar invicto, em todas as madrugadas de todos os fins de semana da história do ambiente, que não resistiu ao nível especial de sua clientela corujada.

Rodrigo era um amante desse esporte. Se é que podemos chamar de esporte esse divino poder que os bares possuem de transformar uma partida de sinuca em uma heroica trajetória gregoriana de um homem invencível quando o assunto é a mesa verde. Além de fã, costumava acompanhar Bac Bac em suas investidas noites adentro no Serjão Beer. Já o Serjão era um homem de cara amarrada, mal humor característico de personalidades por trás do balcão, dono temporário do estabelecimento - não por ter comprado de alguém, mas por ter resistido em manter suas portas abertas por dois anos e meio, motivo relevante para a história de vida e formação do caráter de Rodrigo, Bac Bac e outros jovens amantes daquela birosca e claro, do sereno. Serjão, fofinho e peludo, era de poucas palavras e parecia pouco satisfeito na vida pessoal, quiçá no seu charmoso empreendimento, capaz de atrair a fiel clientela que ele não desejara mas que lhe restou e lhe serviu para o próprio sustento. Talvez nem isso. Aqueles jovens não tinham dinheiro e praticamente vivam no prego. 

Com exceção de... Bac Bac. Ele vinha de boa e bem quista família e tinha uma curiosa irmã que todos conheciam pelas gafes que promovia interior afora e por não ser tão bem quista quanto a família desejava. Cláudia é uma maluca. Recentemente foi presa em Vera Cruz com uma razoável plantação de maconha no seu quintal. Os pés cresceram tanto que passaram o muro e não precisou de nenhum cagoete, a própria polícia verificou ao passar na rua pela manhã. Ela puxou um tempinho, vamos ver quando volta pra galerinha. Mas a história que eu tenho pra te narrar sobre ela é outra. 

Ao terminar o colegial, o pai de Cláudia matriculou ela na UNIMAR pra ser a fisioterapeuta da família.  Com seu modesto poder aquisitivo, botou banca e pousou de star comprando ao lado da faculdade um apartamento pra filha morar e um Golf pra ela andar pela cidade sem passar apuro. Me disseram inclusive que o pai já tinha acordo com o restaurante pra levarem marmita na casa dela, no mesmo horário, de segunda a sábado e ele acertava com antecedência. Os cinco anos passaram e foram todos a festa de formatura. Dias antes, a família se aprontou a tal ponto da mãe levar Cláudia pra São Paulo comprar um caríssimo vestido de formatura. A festa homenageou os avós dela, estampando grandes quadros em preto e branco do casal de idosos e emocionando os presentes. No dia seguinte, todos de verdadeira ressaca ao sentarem pra almoçar ela contou a notícia avassaladora: "não me formei!" e ainda faltavam, se somassem as DPs, quatro anos. 

Tudo isso pra demonstrar o poder aquisitivo da família de Bac Bac, que obviamente também não virou nada de prestígio social, além de um exímio sinuqueiro e conhaqueiro de carteira bem batida. É aquele caso do cara que nunca fez nenhum gol na pelada, mas também nunca chutou uma bola. Esse nem sequer tentou. Descobriu o quente sabor do conhaque na infância durante as gripes constantes e que não lhe davam trégua. Mas foi aos quinze, com a turminha do Yara Clube que ele se apaixonou pelo presida. Quem lhe ensinou jogar sinuca foi o avô, reza a lenda que esse, só frequentava o bar para brincar disso e não arriscava nem um golinho.  

Com empolgação, Rodrigo narrou na mesa da sala dos professores quase a árvore genealógica completa dos envolvidos no causo, quando é subitamente interrompido pela secretária, sorte a nossa, se não isso aqui daria um livro.

- Rodrigo.

- Oi.

-Telefone, uma tal de Cláudia.

sábado, 26 de agosto de 2023

TIGRESA

Manhã chuvosa, busco algum aquecido refúgio nos tradicionais pés-sujos. Sentado e desatento, avisto, correndo da e na garoa, um homem que parece o fantasma que deve assombrar os estabelecimentos outrora de chão batido. Velho conhecido dos bares quase sofisticados do município, João Antônio já tinha longa carreira em cervejas, mesas, cinzeiros e bauretes como dizia Tim Maia. Homem alto, negro, forte. Ninguém na cidade ao menos conhecia seu nome. Era chamado Tigresa. Por todos, absolutamente. Imagino que desde o berço, no momento em que saiu em direção a luz o doutor caprichou: está fadado a ser Tigresa e postulará com orgulho e braveza o vulgo que lhe cabe.

De certo modo, Tigresa já tão habituado em ser, não demonstrou jamais problemas com seu nome de guerra. Problemas ele demonstrava sim: com o álcool. Normalmente, Tigresa era um homem dócil, fácil de lidar, calmo e risonho. Muito amigo. Muito trabalhador. Normalmente disse eu, portanto sim, significa quando bebia e nunca foi pouco.

Os botecos disputavam para ter o Tigresa em seu escrete. Atrevo dizer que ele era talvez o homem mais bem recepcionado pelos donos das bodegas, como uma verdadeira atração, um artista que lida sem amarguras com seu ofício, um artesão dos canais de cevada e lúpulo e com admiradores que vinham sorrindo em sua direção dispostos a lhe estenderem as mãos, saudando sua ilustre presença.

Feito complicado de se conseguir num alto número de bares, com uma considerável variedade na clientela. Ainda mais porque todos tinham ciência que Tigresa jamais pagaria uma dose pra ninguém, jamais. Um cigarro solto? Nunca. Nem pro seu pai que ele não teve a sorte de conhecer, nem pro seu avô, nem pro seu amigo mais íntimo, nunca jamais. E se orgulhava da junção: bem quisto sem nunca se vender.

Todos homens com esse perfil tem, evidentemente, uma série de defeitos. Claro, não para nós. Para a língua da comunidade. Um dos vícios, além do descrito, que Tigresa tinha era levar as meninas pro cemitério. Noitadas com violão, rock and roll e enrosca-enrosca nas paredes de capelas, a ponto das blusas pretas que os roqueiros sempre vestem com aquelas correntes voltarem cheias do cal. Os rockeiros tem costumes peculiares que eu não domino absolutamente nada para descrever a vocês, mas aposto que todos imaginam.

Nesse devaneio de pensamento, avisto o Bode que pega um casco e se senta comigo. Comento com ele que estava nesse exato momento lembrando do Tigresa. Percebo no olhar que Boda se emociona ao recordar. E diz: "não me esqueço do dia que embarquei numa aventura fúnebre com esse maluco. O cara era fissurado em cemitérios." E segue uma dramática narrativa da noite em que, já temperados e flambados no conhaque com mel e sem destino depois da derradeira hora que os garçons começam a recolher as mesas (que são verdadeiros divãs para a nossa tradicional psicologia brasileira) que se aventurou a entrar no cemitério com o especialista. 

O Tigresa ia desabrochando contos eróticos e narrava acontecidos sexuais em cada capela, apontando com o dedo as paredes que foram testemunhas de seu prazer incompreendido. "Só em capelas!" Ele afirmava prontamente, o que deixa no ar as razões do por que seu fetiche não lhe permitia deitar em túmulos. Não para por aí, meus caros. Bode narrou que teve uma época que Tigresa entrou numas. Vai saber. Por algum motivo, dizia-se na cidade, ele havia tacado fogo na própria roupa e que a menininha que lhe espalhou pras outras jovens que depois dessa perdera o tesão. 

Tudo isso, caros, já faz muito tempo. Ouvi dizer que o Tigresa virou pastor em São Borja, curiosamente onde está sepultado Getúlio Vargas. 

Informação relevante: Em um túmulo! 


quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

SOBRE ALEGRIAS E TRISTEZAS

     O sábado no bar do Paulinho tinha churrasqueira acessa e gente saindo pelos bueiros. Eu cheguei às quatro, mas eles chegaram às nove. Aconteceu que o Zé João tinha acertado na cabeça do Urso. Jogou 9390 e saiu pro abraço. Milhar seca. O churrasco rolando era por conta do Zé João, explicada a quantidade de adeptos.  Homem de largo coração caridoso, Zé João tinha realizado outra proeza na noite anterior: os últimos integrantes a deixar o bar do Paulinho, pra lá da meia noite, seriam premiados com uma noite naquela boate duvidosa, com o abastecimento pago pelo Zé. Ele não contou pra ninguém, só anunciou hora que bateu o relógio no doze. Tinham sobrado o professor Abobrinha, Maneco e o próprio dono do estabelecimento. Na verdade, estava lá também o Jorjão Perna, mas esse foi o único nobre a recusar uma noitada de sexta-feira no bordel. Jorge já tinha passado da época, amadureceu demais. Abriram o jogo pra todos os integrantes do bar, com carteirinhas de bater ponto ou não, da aventura jovial da noite anterior.

    - Mas ô Zé, você vai pagar tudo, tudo?

    - Tudo tudo não! Vou pagar a cerva que já é cara pra danar. Bora aproveitar, não é todo dia que se ganha numa milhar dessas. 

    - ô Zé, mas ficar só de olho não dá não, porra. Tem que ao menos dar aquela brincada pra ter emoção.

    - Ah, lógico. Emoção vai ter! Aqui com Zé é diversão garantida. Aliás, você vai ver Maneco. É só eu chegar lá que a dona já vai arrumando o lugar. Logo já vem elas, igual urubu quando vê carniça. Quando eu encosto elas sabem que dá lucro. É o ditado, quem nunca comeu se lambuza até o dedão do pé. 

    Enquanto Paulinho ia descendo as portas de ferro e desligando os freezers, separou o uísque barato pra tragar no caminho, Zé João ia contando vantagem sob o puteiro que visitava vez em nunca. A gente sabe que é mentira. Aliás, em balcão de bar, boa parte do que se diz é uma adulteração com emoção da verdade. Às vezes se emocionam tanto que a verdade é jogada pra escanteio. Há de ter critério para saber diferenciar um relato de balcão de um relato venérico, digo, verídico.

    Você leitor sabe que os bares do interior de São Paulo são repletos de conversadorismo tradicional. Saliento: o tradicional é aquele que respeita a família, mas adora uma boate suspeita. Que é contra todo tipo de viadisse, mas evidentemente quatro homens nus se divertindo com uma meretriz não se enquadra no contexto. É só uma brincadeirinha. 

    Chegando lá, Maneco começou a enlouquecer. Parecia que tinha mandado três carreiras de uma vez, os olhos arregalados. Quase um virgem no bordel, com um único detalhe que tinha três filhos, ao menos registrados no cartório estavam, pois entraram na justiça por pensão. 

    - Táquepariu que que é isso aqui Zé. Você me trouxe pro paraíso. Bendito urso porra! 

    - Não fala em urso não cara, que eu me lembro dela. Se tô aqui é pra esquecer. Dá uma gelada!

    - Sabe Paulo, a gente vence no bicho e pra ficar depressivo é só depois de gastar tudo. Minha vida tá uma porcaria e o problema não é dinheiro não. Minha filha decidiu que não vale a pena falar comigo, que eu sou um ser humano daqueles que não valem um boi. Já meu filho, minha impressão é que ele não gosta, mas atura. Mora fora, quase nunca liga e quando liga é pra pedir. Você sabe, quando filho pede a gente dá um jeito e manda. Faz anos que eu tô mandando e ele não serviu pra discar no meu aniversário. Porra, mandou um zap. (Quando quem tá bancando começa a abrir a caixa você é obrigado a dar atenção) Um zap de aniversário. Minha mulher não saí de casa porque a mãe morreu, se não, já tinha dado no pé. Agora ela dorme no quarto de visitas e levou até o guarda-roupas pra lá. Disse que tá feliz, que eu ronco demais, que resmungo de manhã. Ela não! Ela é perfeita! Não bebe, não fuma. Mas cuida da vida da vizinhança toda, sabe direitinho o nome de cada cristão daquele bairro, quem é casado com quem, quem não teve paz, quem trai, quem sofre junto com quem é feliz. Pô, que merda! agora eu preciso - desce mais uma - me encontrar comigo. Paulo, a família que eu dediquei minha vida virou as costas pra mim Paulo. Faz três anos que não tenho natal em família, aquele último foi muito bonito. Valeu a pena. Acho que três anos atrás eu tinha menos estabilidade e mais felicidade. As crianças eram menores e menos geniosas, agora tudo mudou, parece aquela fase da ignorância, da incompreensão. Eu tinha uma vida mais leve, mais amena. Sabe ir pra praia com a família? Aquelas conversas no caminho, o café no stop do pedágio, as crianças de fone, mão na coxa da mulher... Valoriza isso Paulo, isso é vida de verdade. Nunca mais fiquei num hotel com ela, nunca mais alugamos uma casinha na praia, nada. Só rotina, rotina. Acho que é isso que mata, a porra da rotina. Quando a rotina te domina é tudo no modo automático, você nem reflete, só reproduz. Mas aqui não é lugar pra conversar isso caralho, aqui não dá pra ser triste. Hoje eu tô feliz. 

SOBRE GÊNIOS COTIDIANOS

     Podem falar o que quiser! Bêbado, não paga, pede a dose ele toma um copo, compra um cigarro ele pede um. Agora, verdade seja dita: nunca vi alguém com tamanha habilidade musical para com qualquer instrumento igual Jean Trambique. Podem dar qualquer coisa na mão dele, ele tira o som com a tranquilidade de quem tira leite da vaca. Acabei de ver na rede social ele fazendo o hit da seleção brasileira no sax. Ele deve ter emprestado o instrumento de alguém, sabe? Aquele empréstimo que você não vê de volta. Habilidade nesses moldes conheci só do Cleitinho na percussão. Já citei os dois aqui em outras ocasiões... Já vi o Cleitinho tocar na caixa de Toddy, com tampa e sem tampa. Também já vi ele arrancar um som do cinzeiro com um espeto de churrasco imitando a baqueta numa caixa. Coisa de gênio, coisas pra poucos.

    É preciso admirar e reconhecer os gênios que estão ao nosso redor. Millôr Fernandes uma vez disse que ser gênio não é difícil. Difícil é alguém reconhecer! Eu sou do tipo que reconhece e aplaude a genialidade que pude observar e conviver de maneira cotidiana. É bom ter ídolos por perto. Já disse para os dois que são meus ídolos: Igor The Voice e Marcelinho. Eles formam uma dupla daquelas incontestáveis. Como Aldir e João, Roberto e Erasmo. É como se um tivesse nascido pra encontrar com o outro e a existência dos dois só fizesse sentido se essa conexão ocorresse. Tenho a impressão de que os dois juntos dão sabores a vida. Na realidade eles são um trio musical, talentoso e filosófico quando soma-se com Ilsinho. 

    Compartilho ainda bancos de praça com meus heróis. E não só na música, tenho heróis em outros campos das artes. Na arte de viver com a poesia pulsando e com os instintos sexuais aflorados está o Doc. Doc mistura a poesia que a gente não vive com a porralouquice que ele vive aos fins de semana. Ele é ator, diretor, roteirista, poeta, professor, viado de bandeira erguida e mais uma caralhada de adjetivos que são méritos dele por tê-los. Tenho muitos outros, mas outro dia eu conto. Os envolvidos aqui estavam todos, hora espalhados, hora juntos, na praça da Faculdade de Filosofia que foi batizada como Ágora, por razões que o leitor deve imaginar. Claro, se filosofava muito por lá, daquela maneira que causa estranheza, que o estudante insiste em demonstrar crente que está abafando, colocando palavras fora do contexto para dizer que seu vocabulário é amplo. Quando misturavam filosofia com maconha, birinaite com teco, a coisa ficava calibrada. 

    Então todos calibrados, prontos pra começar o festival de música acústica que juntava aquela roda de pessoas em torno pra curtir o som e brincar de radinho. Aí que o Ilsinho ficava puto da vida. Chegou um qualquer lá, zé ruela pra burro, pedindo música pro The Voice cantar e pro Ilsinho bater (Cleitinho não gosta muito de ser percussionista na praça, como ele seguraria o cigarro e o copo de cerva? Escolhia os dois). O tal Zé pediu uma, pediu duas, pediu três. Não foi atendido. Até que o Ilsinho decidiu mandar a letra:

    - Pô meu irmão, aqui não é radinho não!

    Sururu formado eu falei malandragem. 

    O Zé decidiu pagar de bicho solto e foi pra cima do Ilsinho. Ninguém conhecia o Ruela e todos estavam a fim de defender seu ídolo, ainda mais no habitat natural dele, a praça de filosofia. Ao mesmo tempo, na praça, começou uma pancadaria do outro lado. Parecia um menor de idade, com a mão na cintura, depois de ter tomado aquela entrada no olho direito, simulando que ia sacar o três-oitão. Em área de malandro essa não cola. O comédia levou logo um sopapo daqui e um de lá, quando surge Jean Trambique, no meio da confusão generalizada, com seu violão cantando qualquer coisa de paz do Jonh Lennon, como um hippie contra a guerra do Vietnã. Conclusão, juventude universitária quer sempre se diferenciar da juventude nativa (que quando se trata de Jacarezinho é bastante violenta) e mostrar seus dotes diplomáticos:

    - Vai beiço, pede uma aí! 

    O lazarento do Ilsinho mandou essa...  Nossos ídolos não são perfeitos.