Além dos elementos imóveis que compõe os bares, o principal: os frequentadores dos botecos, que não são poucos, sabiam bem, além da conta. Quarta-feira, no balcão do Bar do Amnésia, Olavo comentou:
- Ontem a Jane virou a cara do Ivo, pá-tá! Ida e volta.
- Mas outra vez?
- Esses dois são sem vergonha!
- Semana passada o Ivo jogou o copo de cachaça na cara dela e ela já logo revidou! Jogou a garrafa. Sorte que não pegou, passou na trisca.
- Onde que foi?
- No bar da Tina.
O balcão todo comentava a degradante vida amorosa de Ivo e Jane, que por sua vez, não costumavam comentar a vida amorosa de ninguém. O folclore entorno dos dois era tanto, que já não se distinguia ficção e realidade. O que pouco importa, visto que superior é a personagem e sua essência. Aí que está! Essência mesmo, a mitologia de Jane e Ivo era real.
Jane era uma cozinheira de primeira linha, podia ter tomado o porre que fosse, levantava cedo. Preparava o café. O primeiro gole do dia é posto aos pés de São Benedito, junto com um pai nosso sussurrado pela metade. Depois, ela ia até o espelho do tanque, pegava o óleo maria e passava no rosto, como se esse fosse o creme caro das madames da cidade. Todo santo dia, seus primeiros atos matinais se resumiam a isso. Café, São Benedito, Oléo Maria. O que mudava era o prato a ser preparado, o sabor das marmitas que ela fazia sob encomenda e ganhava até um bom dinheiro.
Já Ivo acordava uns 15 minutos mais tarde, com outra preocupação matinal: seu bigode. Fazia a barba e acertava o bigode no espelho do banheiro, com certa velocidade pra depois poder gastar alguns minutos apreciando a maneira precisa com que ele conseguia manter o bigode um dedo indicador abaixo do nariz. A distração com o bigode ajudava-o na vida corrida que ele levava. Ivo era carteiro dos correios, o primeiro da leva dos terceirizados. Se sentia funcionário público, coitado. Coisas que a ilusão permitia. Manhã e tarde embaixo de sol e de manga longa e calças azuis. Seu alívio era na hora do almoço. Comer a comida espetacular preparada por sua maior paixão.
Ivo conheceu Jane dez anos antes, adivinhem... No bar da Diva, quando esse ainda era um bar "família", onde se podia namorar sem o murmúrio dos bares menos sofisticados, com sua discriminação ao amor. Os dois se apaixonaram logo após a vida ter armado a coincidência cupido, os dois tinham pedido a mesma dose de Cynar, uma bebida nem tão comum. Daí em diante é história regada à álcool, tabaco, tabefes e lógico, amor.
Os bares que Jane e Ivo frequentavam serviam para a divulgação culinária dessa verdadeira chefe de cozinha. Que mão boa! Que talento! Os frequentadores do Escritório (bar em frente à casa da Jane) conheciam de perto, tanto o cheiro quanto o sabor. Jane tinha umas mesas de bar na varanda, com toalhas listradas e um cinzeiro sob cada uma, onde servia o almoço para quem não quisesse levar a marmita pra comer sei lá onde. Se havia dúvidas sobre sua conduta com Ivo e vice-versa, não havia nenhuma sobre sua qualidade culinária. Isso é, apesar da má fama que o casal emanava, mantinham o certificado de moderação e apreço da galera
Cada dia vinha um elogio:
- QUE RABADA!
- QUE MOQUEQUINHA!
- PENSA NUM BAIÃO DE DOIS...
- NOSSA, A JANE FEZ UM CHARUTO... VOU TE CONTAR...
- QUEM TEM DIRETO DE DAR NA CARA DELE SOU EU SUA PIRANHA!