sábado, 19 de novembro de 2022

JANE E IVO

     Toda a estrutura dos bares da cidade conhecia o glamuroso casal sem-vergonha, daqueles que cantou Zeca Pagodinho, com diferenças e semelhanças. Há quem diga que casal sem-vergonha é tudo igual, eu particularmente discordo. Todo casal é sem vergonha, sem exceção. Os excessos estão aí... Quando digo "toda a estrutura" está incluso o espaço geográfico dos bares, seus ladrilhos vermelhos, seus balcões de madeira, os potes que giram onde ficam os piores tipos de bala, as estreitas paredes do banheiro junto com seu odor característico. Esses espaços conheciam Jane e Ivo tanto quanto o casal os conhecia. 

Além dos elementos imóveis que compõe os bares, o principal: os frequentadores dos botecos, que não são poucos, sabiam bem, além da conta. Quarta-feira, no balcão do Bar do Amnésia, Olavo comentou:

- Ontem a Jane virou a cara do Ivo, pá-tá! Ida e volta. 

- Mas outra vez?

- Esses dois são sem vergonha!

- Semana passada o Ivo jogou o copo de cachaça na cara dela e ela já logo revidou! Jogou a garrafa. Sorte que não pegou, passou na trisca.

- Onde que foi?

- No bar da Tina.

O balcão todo comentava a degradante vida amorosa de Ivo e Jane, que por sua vez, não costumavam comentar a vida amorosa de ninguém. O folclore entorno dos dois era tanto, que já não se distinguia ficção e realidade. O que pouco importa, visto que superior é a personagem e sua essência. Aí que está! Essência mesmo, a mitologia de Jane e Ivo era real. 

Jane era uma cozinheira de primeira linha, podia ter tomado o porre que fosse, levantava cedo. Preparava o café. O primeiro gole do dia é posto aos pés de São Benedito, junto com um pai nosso sussurrado pela metade. Depois, ela ia até o espelho do tanque, pegava o óleo maria e passava no rosto, como se esse fosse o creme caro das madames da cidade. Todo santo dia, seus primeiros atos matinais se resumiam a isso. Café, São Benedito, Oléo Maria. O que mudava era o prato a ser preparado, o sabor das marmitas que ela fazia sob encomenda e ganhava até um bom dinheiro. 

Já Ivo acordava uns 15 minutos mais tarde, com outra preocupação matinal: seu bigode. Fazia a barba e acertava o bigode no espelho do banheiro, com certa velocidade pra depois poder gastar alguns minutos apreciando a maneira precisa com que ele conseguia manter o bigode um dedo indicador abaixo do nariz. A distração com o bigode ajudava-o na vida corrida que ele levava. Ivo era carteiro dos correios, o primeiro da leva dos terceirizados. Se sentia funcionário público, coitado. Coisas que a ilusão permitia. Manhã e tarde embaixo de sol e de manga longa e calças azuis. Seu alívio era na hora do almoço. Comer a comida espetacular preparada por sua maior paixão.

Ivo conheceu Jane dez anos antes, adivinhem... No bar da Diva, quando esse ainda era um bar "família", onde se podia namorar sem o murmúrio dos bares menos sofisticados, com sua discriminação ao amor. Os dois se apaixonaram logo após a vida ter armado a coincidência cupido, os dois tinham pedido a mesma dose de Cynar, uma bebida nem tão comum. Daí em diante é história regada à álcool, tabaco, tabefes e lógico, amor. 

Os bares que Jane e Ivo frequentavam serviam para a divulgação culinária dessa verdadeira chefe de cozinha. Que mão boa! Que talento! Os frequentadores do Escritório (bar em frente à casa da Jane) conheciam de perto, tanto o cheiro quanto o sabor. Jane tinha umas mesas de bar na varanda, com toalhas listradas e um cinzeiro sob cada uma, onde servia o almoço para quem não quisesse levar a marmita pra comer sei lá onde. Se havia dúvidas sobre sua conduta com Ivo e vice-versa, não havia nenhuma sobre sua qualidade culinária. Isso é, apesar da má fama que o casal emanava, mantinham o certificado de moderação e apreço da galera

Cada dia vinha um elogio: 

- QUE RABADA! 

- QUE MOQUEQUINHA! 

- PENSA NUM BAIÃO DE DOIS...

- NOSSA, A JANE FEZ UM CHARUTO... VOU TE CONTAR...

O sistema de exploração capitalista soube captar muito bem o dote de Jane para a cozinha. Os donos dos bares da cidade, para atrair mais clientes em suas dependências, começaram a oferecer pratos da Jane aos fins de semana em troca adivinha do quê? De birita! Claro! Esse é o ponto fraco um a cada três brasileiros. Quando Jane cozinhava, ela e Ivo podiam tomar à vontade. Aí que morava o perigo... 
Certa feita, lá pras tantas, quando os dois já estavam naquele modelo, a água começou ferver. Jane fumava Dallas azul e Ivo fumava Dalton vermelho. Quando o cigarro de Ivo acabou, ele se levantou pra comprar outro maço. No caminho, encontrou Sandra. Uma morena linda, de vestido verde e cabelos ondulados, já mamado Ivo mandou a letra: "Tu num é ruim não hein?". Sandra, que não tava pra papo de bigode velho, acertou uma bem em cheio na fuça do Ivinho. Pra quê! Jane grudou no cabelo da morena e sem deixar ela cair aplicou o golpe: meteu-lhe a brasa do cigarro bem na curva do seu cangote... Depois daquele grito agudo ela soltou o verbo: 

- QUEM TEM DIRETO DE DAR NA CARA DELE SOU EU SUA PIRANHA!