terça-feira, 29 de novembro de 2022

A LOIRINHA DO VOVÓDKA

     Eventos de rock nunca estiveram no meu cardápio. Considero chulo e xucro. Me agoniza ver aquele número de pessoas com camisetas pretas com o nome de alguma banda conhecida do meio, outras mais populares, outras nada populares. Aquela reprodução mesquinha de cultura americana fazendo meia nove com conservadorismo brasileiro deveria incomodar qualquer cristão. O pessoal do ramo acha o máximo, alguns se orgulham tanto que perdem o senso do ridículo: "isso que é música de verdade" ou "não é o lixo que se ouve hoje em dia". Blá, blá, blé. Considero a poluição sonora do have metal (é assim que escreve? não faço questão) as vezes pior que uma broca na rua de casa domingo de manhã. Quiçá pior do que a batida suingada do funk, repetidas vezes sensual.

     O orgulho às vezes nos trai, já vi de perto casos de pessoas que se orgulhavam do que no fundo, os envergonhava. Por exemplo aquela sua tia barraqueira que depois de ter enchido o tanque e armado o maior vexame e sem razão diz "eu sou assim, eu falo mesmo!" Percebeu? Mas não é só o orgulho roqueiro que me incomoda, é a cultura entorno desse orgulho. Você leitora há de convir, não há nada pior do que um ambiente em que se está cercado por essas seitas musicais exclusivistas e autoritárias, onde não se pode variar no estilo, inimigos do ritmo e da diversidade. Nesse ponto vale para todas as tribos. Os sertanejos e seus churrascos onde só se pode ouvir aquelas músicas idênticas umas às outras, com cantores interpretando de maneira idêntica um bode com dores intestinais. Os funkeiros com aqueles cantores que forçam a voz de fanho e ainda remixam. Etcétera etcétera. Aqui cabe todo mundo.

    Mas estamos aqui para contar o causo da noite que estávamos num bar meia-meia-meia de seita rockeira que já partiu para a cova em frente à sua localização, que era o campo de futebol conhecido como "aerozão" onde, reza a lenda, ocorreu mais assassinatos do que gols. Chamava-se capitão beer e nunca foi um local muito frequentado por mim, a final me considero uma pessoa nanoeclética (qualquer dia eu trago a definição). Estavam lá Jean Trambique, Wildes Masterchef, um japonês professor de Geografia formado em História, Gabriel Bueno e eu, tristemente. Nenhum de nós escapa quando se trata de contar os amigos roqueiros que temos. Alguns deles nunca mais voltaram dos quinze anos colegiais, esses por sorte sim. Caímos lá por conta do japa que tava bancando a brincadeira. Notoriamente ele estava precisando de companhia, gostava de sinuca e dentro do bar jogava com o cigarro no canto da boca, meio broxa, apontado para baixo. Saía repetidas vezes para fumar e como todos são bons acompanhantes saíamos para fumar também, até que conseguimos uma mesa lá fora em meio há jaquetas de motoclube e camisas pretas de bandas pouco populares. 

    Era época de eleição municipal. Até aí nada de mal. Ou tudo, quando chega na mesa uma mulher já de meia idade, com camisa preta bem abotoada, pulseiras pretas com pontas imitando ferro, calça preta e olhos bem pintados - adivinhem? - de preto. Ela pede licença, interrompendo um assunto qualquer de onze da noite e se apresenta. O nome dela, meus caros, minha memória por sorte não fez backup. Entregou os santinhos e começou o discurso pra vereadora: 

    - Eu tô sempre aqui no Capitão sabe? Sou rockeira mesmo. Minha foto aí no santinho não está de preto porque o partido não deixou. O partido é evangélico sabe? Por isso... Eu briguei muito, queria que a foto fosse de preto, sou roqueira de verdade (ela insistia nisso, crente que algum de nós votaria nela pelo simples fato de ser roqueira e de estarmos ali - num bar de roqueiros - supunha que votamos em roqueiros, coisa que em relação ao meu voto já estava mais que descartado. Imaginem votar em roqueiro e em partido evangélico ao mesmo tempo. É como comprar um passaporte pro inferno com chances da alfândega de lucífer te barrar na roleta). 

E prosseguiu:

    - Falta apoio pros roqueiros da cidade! Não tem mais evento de rock, acabaram com a noite do rock, não tem mais o clube do rock no espaço cultural! Por isso sou candidata! Se vocês puderem votar em mim...

    Não contendo minha indignação, afirmei que não votaria daquela maneira elegante que brasileiro cordial destaca quando quer dizer que não vai votar no sujeito "já tinha candidato!" Deve-se entender que os candidatos que afirmamos ter não necessariamente existem, mas servem para nos livrar do fardo de guardar dentro de nós aquele desejo de ter dito ao candidato que você não votará nele. Jean Trambique, que comungava com certo conservadorismo social não radical decidiu questionar de maneira leve e educada: 

    - Mas você é candidata por isso?

    - Sim! Precisamos de roqueiros lá para fazer as coisas pelos roqueiros da cidade! (puta papo politizado) É que o partido não deixou eu colocar meu apelido no santinho, mas eu sou conhecida como a loirinha do vovódika. Vocês devem lembrar, a gente já tocou muiiiito aqui no capitão, tenho certeza que vou acabar perdendo votos por isso, muita gente me conhece como a loirinha do vovódka...

    É isso. O cabelo dela nessa ocasião estava preto.