segunda-feira, 28 de agosto de 2023

CIRROSE GASOLINA

Em áreas como literatura e cinema, início, meio e fim são relevantes nem sempre para uma boa história mas para que uma história seja bem contada. No entanto, as mesas de bar - território sagrado da oralidade e profano para a oratória - subvertem a lógica. Nessas, é possível que uma interessante história ainda esteja para chegar ao seu clímax e será necessário aguardar os próximos capítulos, ou o capítulo final pode estar próximo e será necessário outra cerveja na próxima semana para saber o resultado. 

Também existem, e como, histórias de mesas de bar que são frequentemente interrompidas por algum bebum inconveniente que insiste em invadir seu assunto, por algum vendedor de alguma coisa, por algum acontecimento irrelevante para a lógica social como o sexo entre dois cachorros, ou uma moto passando o pare sem parar e com o farol apagado entre diversas outras situações aptas a desviar os assuntos pela lógica brutal dos acontecimentos endurecidos do cotidiano que não passam em branco. Algumas histórias simplesmente não tem fim ou o capítulo final é desconhecido.

No bar do Paulinho, ao lado do Rodrigo sempre cabe outro conto rodriguiano. Todo mundo tem um primo de São Paulo que vêm pro interior passar as férias com pouca frequência, mas quando vêm, deixam a memória marcada. No caso dele - contava - o sujeito era um tal de Cirrose, e nem de São Paulo era, Diadema, mas nas nossas bandas falava São Paulo com ares de superioridade típica desse pessoal que se enxerga mais esperto e mais calejado com as amarguras da vida cotidiana que o povo caipira. 

Bom, pelo vulgo do satanás vocês já devem fazer as mais corretas suposições. Sim, ele era daqueles jovens que tomava gasolina. E gostava de ser o primo apresentador, que desviava a trupe. Toda vez que vinha pra essas bandas trazia novidades para a molecada. Deu aula de como fumar maconha para quase todos os adolescentes que iam a noite nas praças. Aula completa mesmo, ensinou desde a cor da qualidade, métodos de produção, equipamentos modernos para o consumo e pechincha. Ensinava com propriedade e aula prática. Ensinou também a produção barata de loló e adorava cheirar cola. Dizia que era da torcida organizada e se prendia a atenção dos meninos que, babões ouvia histórias de brigas em becos escuros e estações de metrô. Aqui, na casa de sua tia, tinha uma mobilete zero bala branca, capaz de fazer inveja e provocar suspiros nas meninas quando ele passava sem capacete em frente as praças, embora nunca tenha sido sua praia fazer sucesso com elas. 

- Quando o pai dele morreu, a mãe achou a agulha no palheiro. Depois de alguns anos viúva, casou com um grande empresário e praticamente abandonou os filhos que já eram desviados no mundo. Isso ajudou a provocar ainda mais revolta no Cirrose, que bebia desenfreadamente. Quando eles vinham no ano novo podia agendar que ia ter. O quebra-pau era garantido. Depois de certa hora ele ia pra rua, mesmo sem conhecer ninguém e já trombava com alguns outros desviados... Era só o começo da saga. 

 O Rodrigo quando começa vocês já viram. 

- O cara desviou metade dos munícipes. Só ensinava o que não presta. Eu incluso, fui aluno.

- Ah, mas essa aí tá levinha. Você já contou piores.

- Levinha? Calma, ainda não cheguei. Cirrose herdou uma zona quando o irmão dele morreu.

- Tava demorando.

- Herdou, o irmão era envolvido com o meretrício. Costume de família, vinha do avô do avô. O pai já gostava mais da outra face da contravenção. Caça-níqueis, jogo-do-bicho etc. O problema foi uma cobrança entre os envolvidos e concorrentes. Contaram que era uma espécie de acordo, um empresário ia na casa noturna do outro. Consumiam e ficava tudo quite. Mas diz que um não pagou, o outro teve um ciúme, você sabe que esse povo se apaixona né?

- Sei.

- Então, já dizia o Tim Maia. Mas aí, numa dessas noites e de porre, o ciumento foi lá e meteu bala no irmão do Cirrose. Outros aí falaram que era porque aquele cabaré tava fazendo o dobro de clientes do outro, mas não é nada disso não. Aí a casa caiu no colo do Cirrose.

- E durou na mão dele?

- Durou nada. Capaz... Mas eu juro que não sei o que virou. Depois disso ele nunca mais apareceu pra cá, mas deixou um monte de discípulo por aí. A galera com certeza não esquece dele até hoje. Perguntei pro Bode, ele me disse que reza a lenda que ele está em Pirituba hoje. Nunca mais se ouviu falar no Cirrose. 

- É, pelo menos você herdou a mobilete...

domingo, 27 de agosto de 2023

SINUCA BAC BAC

Rodrigo é o coordenador da escola que trabalho, mestre na contação de histórias sobre mestres nas vivências experimentais e alternativas. Na mesa, pergunta ao Márcio se, por acaso se lembrava do Bar do Serjão, aquele lamentável e saudoso ambiente insalubre onde jovens chumbados da cabeça com todos os tipos de efeitos do produto abaixavam as portas de ferro e ficavam lá dentro consumindo com liberdade e competindo com tacos, bolas e giz. Giz de todos os tipos. Azul para a mesa e branco para os meninos. Os contos rodriguianos são sempre assim: começam fatídicos e terminam no começo. 

O craque da sinuca do estabelecimento, vencedor de doses, caixas, cigarros, conhaques, rabos de galos e ostentador dos louros com justiça era o Bac Bac. Só que a fera só funcionava com combustível e com aquele óleo no motor: misturava, separadamente, o combo conhaque-rapé-e-paieiro. Só começava a brincadeira depois de ao menos três inserções. Reza a lenda que fechou o bar invicto, em todas as madrugadas de todos os fins de semana da história do ambiente, que não resistiu ao nível especial de sua clientela corujada.

Rodrigo era um amante desse esporte. Se é que podemos chamar de esporte esse divino poder que os bares possuem de transformar uma partida de sinuca em uma heroica trajetória gregoriana de um homem invencível quando o assunto é a mesa verde. Além de fã, costumava acompanhar Bac Bac em suas investidas noites adentro no Serjão Beer. Já o Serjão era um homem de cara amarrada, mal humor característico de personalidades por trás do balcão, dono temporário do estabelecimento - não por ter comprado de alguém, mas por ter resistido em manter suas portas abertas por dois anos e meio, motivo relevante para a história de vida e formação do caráter de Rodrigo, Bac Bac e outros jovens amantes daquela birosca e claro, do sereno. Serjão, fofinho e peludo, era de poucas palavras e parecia pouco satisfeito na vida pessoal, quiçá no seu charmoso empreendimento, capaz de atrair a fiel clientela que ele não desejara mas que lhe restou e lhe serviu para o próprio sustento. Talvez nem isso. Aqueles jovens não tinham dinheiro e praticamente vivam no prego. 

Com exceção de... Bac Bac. Ele vinha de boa e bem quista família e tinha uma curiosa irmã que todos conheciam pelas gafes que promovia interior afora e por não ser tão bem quista quanto a família desejava. Cláudia é uma maluca. Recentemente foi presa em Vera Cruz com uma razoável plantação de maconha no seu quintal. Os pés cresceram tanto que passaram o muro e não precisou de nenhum cagoete, a própria polícia verificou ao passar na rua pela manhã. Ela puxou um tempinho, vamos ver quando volta pra galerinha. Mas a história que eu tenho pra te narrar sobre ela é outra. 

Ao terminar o colegial, o pai de Cláudia matriculou ela na UNIMAR pra ser a fisioterapeuta da família.  Com seu modesto poder aquisitivo, botou banca e pousou de star comprando ao lado da faculdade um apartamento pra filha morar e um Golf pra ela andar pela cidade sem passar apuro. Me disseram inclusive que o pai já tinha acordo com o restaurante pra levarem marmita na casa dela, no mesmo horário, de segunda a sábado e ele acertava com antecedência. Os cinco anos passaram e foram todos a festa de formatura. Dias antes, a família se aprontou a tal ponto da mãe levar Cláudia pra São Paulo comprar um caríssimo vestido de formatura. A festa homenageou os avós dela, estampando grandes quadros em preto e branco do casal de idosos e emocionando os presentes. No dia seguinte, todos de verdadeira ressaca ao sentarem pra almoçar ela contou a notícia avassaladora: "não me formei!" e ainda faltavam, se somassem as DPs, quatro anos. 

Tudo isso pra demonstrar o poder aquisitivo da família de Bac Bac, que obviamente também não virou nada de prestígio social, além de um exímio sinuqueiro e conhaqueiro de carteira bem batida. É aquele caso do cara que nunca fez nenhum gol na pelada, mas também nunca chutou uma bola. Esse nem sequer tentou. Descobriu o quente sabor do conhaque na infância durante as gripes constantes e que não lhe davam trégua. Mas foi aos quinze, com a turminha do Yara Clube que ele se apaixonou pelo presida. Quem lhe ensinou jogar sinuca foi o avô, reza a lenda que esse, só frequentava o bar para brincar disso e não arriscava nem um golinho.  

Com empolgação, Rodrigo narrou na mesa da sala dos professores quase a árvore genealógica completa dos envolvidos no causo, quando é subitamente interrompido pela secretária, sorte a nossa, se não isso aqui daria um livro.

- Rodrigo.

- Oi.

-Telefone, uma tal de Cláudia.

sábado, 26 de agosto de 2023

TIGRESA

Manhã chuvosa, busco algum aquecido refúgio nos tradicionais pés-sujos. Sentado e desatento, avisto, correndo da e na garoa, um homem que parece o fantasma que deve assombrar os estabelecimentos outrora de chão batido. Velho conhecido dos bares quase sofisticados do município, João Antônio já tinha longa carreira em cervejas, mesas, cinzeiros e bauretes como dizia Tim Maia. Homem alto, negro, forte. Ninguém na cidade ao menos conhecia seu nome. Era chamado Tigresa. Por todos, absolutamente. Imagino que desde o berço, no momento em que saiu em direção a luz o doutor caprichou: está fadado a ser Tigresa e postulará com orgulho e braveza o vulgo que lhe cabe.

De certo modo, Tigresa já tão habituado em ser, não demonstrou jamais problemas com seu nome de guerra. Problemas ele demonstrava sim: com o álcool. Normalmente, Tigresa era um homem dócil, fácil de lidar, calmo e risonho. Muito amigo. Muito trabalhador. Normalmente disse eu, portanto sim, significa quando bebia e nunca foi pouco.

Os botecos disputavam para ter o Tigresa em seu escrete. Atrevo dizer que ele era talvez o homem mais bem recepcionado pelos donos das bodegas, como uma verdadeira atração, um artista que lida sem amarguras com seu ofício, um artesão dos canais de cevada e lúpulo e com admiradores que vinham sorrindo em sua direção dispostos a lhe estenderem as mãos, saudando sua ilustre presença.

Feito complicado de se conseguir num alto número de bares, com uma considerável variedade na clientela. Ainda mais porque todos tinham ciência que Tigresa jamais pagaria uma dose pra ninguém, jamais. Um cigarro solto? Nunca. Nem pro seu pai que ele não teve a sorte de conhecer, nem pro seu avô, nem pro seu amigo mais íntimo, nunca jamais. E se orgulhava da junção: bem quisto sem nunca se vender.

Todos homens com esse perfil tem, evidentemente, uma série de defeitos. Claro, não para nós. Para a língua da comunidade. Um dos vícios, além do descrito, que Tigresa tinha era levar as meninas pro cemitério. Noitadas com violão, rock and roll e enrosca-enrosca nas paredes de capelas, a ponto das blusas pretas que os roqueiros sempre vestem com aquelas correntes voltarem cheias do cal. Os rockeiros tem costumes peculiares que eu não domino absolutamente nada para descrever a vocês, mas aposto que todos imaginam.

Nesse devaneio de pensamento, avisto o Bode que pega um casco e se senta comigo. Comento com ele que estava nesse exato momento lembrando do Tigresa. Percebo no olhar que Boda se emociona ao recordar. E diz: "não me esqueço do dia que embarquei numa aventura fúnebre com esse maluco. O cara era fissurado em cemitérios." E segue uma dramática narrativa da noite em que, já temperados e flambados no conhaque com mel e sem destino depois da derradeira hora que os garçons começam a recolher as mesas (que são verdadeiros divãs para a nossa tradicional psicologia brasileira) que se aventurou a entrar no cemitério com o especialista. 

O Tigresa ia desabrochando contos eróticos e narrava acontecidos sexuais em cada capela, apontando com o dedo as paredes que foram testemunhas de seu prazer incompreendido. "Só em capelas!" Ele afirmava prontamente, o que deixa no ar as razões do por que seu fetiche não lhe permitia deitar em túmulos. Não para por aí, meus caros. Bode narrou que teve uma época que Tigresa entrou numas. Vai saber. Por algum motivo, dizia-se na cidade, ele havia tacado fogo na própria roupa e que a menininha que lhe espalhou pras outras jovens que depois dessa perdera o tesão. 

Tudo isso, caros, já faz muito tempo. Ouvi dizer que o Tigresa virou pastor em São Borja, curiosamente onde está sepultado Getúlio Vargas. 

Informação relevante: Em um túmulo!