Rodrigo é o coordenador da escola que trabalho, mestre na contação de histórias sobre mestres nas vivências experimentais e alternativas. Na mesa, pergunta ao Márcio se, por acaso se lembrava do Bar do Serjão, aquele lamentável e saudoso ambiente insalubre onde jovens chumbados da cabeça com todos os tipos de efeitos do produto abaixavam as portas de ferro e ficavam lá dentro consumindo com liberdade e competindo com tacos, bolas e giz. Giz de todos os tipos. Azul para a mesa e branco para os meninos. Os contos rodriguianos são sempre assim: começam fatídicos e terminam no começo.
O craque da sinuca do estabelecimento, vencedor de doses, caixas, cigarros, conhaques, rabos de galos e ostentador dos louros com justiça era o Bac Bac. Só que a fera só funcionava com combustível e com aquele óleo no motor: misturava, separadamente, o combo conhaque-rapé-e-paieiro. Só começava a brincadeira depois de ao menos três inserções. Reza a lenda que fechou o bar invicto, em todas as madrugadas de todos os fins de semana da história do ambiente, que não resistiu ao nível especial de sua clientela corujada.
Rodrigo era um amante desse esporte. Se é que podemos chamar de esporte esse divino poder que os bares possuem de transformar uma partida de sinuca em uma heroica trajetória gregoriana de um homem invencível quando o assunto é a mesa verde. Além de fã, costumava acompanhar Bac Bac em suas investidas noites adentro no Serjão Beer. Já o Serjão era um homem de cara amarrada, mal humor característico de personalidades por trás do balcão, dono temporário do estabelecimento - não por ter comprado de alguém, mas por ter resistido em manter suas portas abertas por dois anos e meio, motivo relevante para a história de vida e formação do caráter de Rodrigo, Bac Bac e outros jovens amantes daquela birosca e claro, do sereno. Serjão, fofinho e peludo, era de poucas palavras e parecia pouco satisfeito na vida pessoal, quiçá no seu charmoso empreendimento, capaz de atrair a fiel clientela que ele não desejara mas que lhe restou e lhe serviu para o próprio sustento. Talvez nem isso. Aqueles jovens não tinham dinheiro e praticamente vivam no prego.
Com exceção de... Bac Bac. Ele vinha de boa e bem quista família e tinha uma curiosa irmã que todos conheciam pelas gafes que promovia interior afora e por não ser tão bem quista quanto a família desejava. Cláudia é uma maluca. Recentemente foi presa em Vera Cruz com uma razoável plantação de maconha no seu quintal. Os pés cresceram tanto que passaram o muro e não precisou de nenhum cagoete, a própria polícia verificou ao passar na rua pela manhã. Ela puxou um tempinho, vamos ver quando volta pra galerinha. Mas a história que eu tenho pra te narrar sobre ela é outra.
Ao terminar o colegial, o pai de Cláudia matriculou ela na UNIMAR pra ser a fisioterapeuta da família. Com seu modesto poder aquisitivo, botou banca e pousou de star comprando ao lado da faculdade um apartamento pra filha morar e um Golf pra ela andar pela cidade sem passar apuro. Me disseram inclusive que o pai já tinha acordo com o restaurante pra levarem marmita na casa dela, no mesmo horário, de segunda a sábado e ele acertava com antecedência. Os cinco anos passaram e foram todos a festa de formatura. Dias antes, a família se aprontou a tal ponto da mãe levar Cláudia pra São Paulo comprar um caríssimo vestido de formatura. A festa homenageou os avós dela, estampando grandes quadros em preto e branco do casal de idosos e emocionando os presentes. No dia seguinte, todos de verdadeira ressaca ao sentarem pra almoçar ela contou a notícia avassaladora: "não me formei!" e ainda faltavam, se somassem as DPs, quatro anos.
Tudo isso pra demonstrar o poder aquisitivo da família de Bac Bac, que obviamente também não virou nada de prestígio social, além de um exímio sinuqueiro e conhaqueiro de carteira bem batida. É aquele caso do cara que nunca fez nenhum gol na pelada, mas também nunca chutou uma bola. Esse nem sequer tentou. Descobriu o quente sabor do conhaque na infância durante as gripes constantes e que não lhe davam trégua. Mas foi aos quinze, com a turminha do Yara Clube que ele se apaixonou pelo presida. Quem lhe ensinou jogar sinuca foi o avô, reza a lenda que esse, só frequentava o bar para brincar disso e não arriscava nem um golinho.
Com empolgação, Rodrigo narrou na mesa da sala dos professores quase a árvore genealógica completa dos envolvidos no causo, quando é subitamente interrompido pela secretária, sorte a nossa, se não isso aqui daria um livro.
- Rodrigo.
- Oi.
-Telefone, uma tal de Cláudia.