quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

SOBRE ALEGRIAS E TRISTEZAS

     O sábado no bar do Paulinho tinha churrasqueira acessa e gente saindo pelos bueiros. Eu cheguei às quatro, mas eles chegaram às nove. Aconteceu que o Zé João tinha acertado na cabeça do Urso. Jogou 9390 e saiu pro abraço. Milhar seca. O churrasco rolando era por conta do Zé João, explicada a quantidade de adeptos.  Homem de largo coração caridoso, Zé João tinha realizado outra proeza na noite anterior: os últimos integrantes a deixar o bar do Paulinho, pra lá da meia noite, seriam premiados com uma noite naquela boate duvidosa, com o abastecimento pago pelo Zé. Ele não contou pra ninguém, só anunciou hora que bateu o relógio no doze. Tinham sobrado o professor Abobrinha, Maneco e o próprio dono do estabelecimento. Na verdade, estava lá também o Jorjão Perna, mas esse foi o único nobre a recusar uma noitada de sexta-feira no bordel. Jorge já tinha passado da época, amadureceu demais. Abriram o jogo pra todos os integrantes do bar, com carteirinhas de bater ponto ou não, da aventura jovial da noite anterior.

    - Mas ô Zé, você vai pagar tudo, tudo?

    - Tudo tudo não! Vou pagar a cerva que já é cara pra danar. Bora aproveitar, não é todo dia que se ganha numa milhar dessas. 

    - ô Zé, mas ficar só de olho não dá não, porra. Tem que ao menos dar aquela brincada pra ter emoção.

    - Ah, lógico. Emoção vai ter! Aqui com Zé é diversão garantida. Aliás, você vai ver Maneco. É só eu chegar lá que a dona já vai arrumando o lugar. Logo já vem elas, igual urubu quando vê carniça. Quando eu encosto elas sabem que dá lucro. É o ditado, quem nunca comeu se lambuza até o dedão do pé. 

    Enquanto Paulinho ia descendo as portas de ferro e desligando os freezers, separou o uísque barato pra tragar no caminho, Zé João ia contando vantagem sob o puteiro que visitava vez em nunca. A gente sabe que é mentira. Aliás, em balcão de bar, boa parte do que se diz é uma adulteração com emoção da verdade. Às vezes se emocionam tanto que a verdade é jogada pra escanteio. Há de ter critério para saber diferenciar um relato de balcão de um relato venérico, digo, verídico.

    Você leitor sabe que os bares do interior de São Paulo são repletos de conversadorismo tradicional. Saliento: o tradicional é aquele que respeita a família, mas adora uma boate suspeita. Que é contra todo tipo de viadisse, mas evidentemente quatro homens nus se divertindo com uma meretriz não se enquadra no contexto. É só uma brincadeirinha. 

    Chegando lá, Maneco começou a enlouquecer. Parecia que tinha mandado três carreiras de uma vez, os olhos arregalados. Quase um virgem no bordel, com um único detalhe que tinha três filhos, ao menos registrados no cartório estavam, pois entraram na justiça por pensão. 

    - Táquepariu que que é isso aqui Zé. Você me trouxe pro paraíso. Bendito urso porra! 

    - Não fala em urso não cara, que eu me lembro dela. Se tô aqui é pra esquecer. Dá uma gelada!

    - Sabe Paulo, a gente vence no bicho e pra ficar depressivo é só depois de gastar tudo. Minha vida tá uma porcaria e o problema não é dinheiro não. Minha filha decidiu que não vale a pena falar comigo, que eu sou um ser humano daqueles que não valem um boi. Já meu filho, minha impressão é que ele não gosta, mas atura. Mora fora, quase nunca liga e quando liga é pra pedir. Você sabe, quando filho pede a gente dá um jeito e manda. Faz anos que eu tô mandando e ele não serviu pra discar no meu aniversário. Porra, mandou um zap. (Quando quem tá bancando começa a abrir a caixa você é obrigado a dar atenção) Um zap de aniversário. Minha mulher não saí de casa porque a mãe morreu, se não, já tinha dado no pé. Agora ela dorme no quarto de visitas e levou até o guarda-roupas pra lá. Disse que tá feliz, que eu ronco demais, que resmungo de manhã. Ela não! Ela é perfeita! Não bebe, não fuma. Mas cuida da vida da vizinhança toda, sabe direitinho o nome de cada cristão daquele bairro, quem é casado com quem, quem não teve paz, quem trai, quem sofre junto com quem é feliz. Pô, que merda! agora eu preciso - desce mais uma - me encontrar comigo. Paulo, a família que eu dediquei minha vida virou as costas pra mim Paulo. Faz três anos que não tenho natal em família, aquele último foi muito bonito. Valeu a pena. Acho que três anos atrás eu tinha menos estabilidade e mais felicidade. As crianças eram menores e menos geniosas, agora tudo mudou, parece aquela fase da ignorância, da incompreensão. Eu tinha uma vida mais leve, mais amena. Sabe ir pra praia com a família? Aquelas conversas no caminho, o café no stop do pedágio, as crianças de fone, mão na coxa da mulher... Valoriza isso Paulo, isso é vida de verdade. Nunca mais fiquei num hotel com ela, nunca mais alugamos uma casinha na praia, nada. Só rotina, rotina. Acho que é isso que mata, a porra da rotina. Quando a rotina te domina é tudo no modo automático, você nem reflete, só reproduz. Mas aqui não é lugar pra conversar isso caralho, aqui não dá pra ser triste. Hoje eu tô feliz. 

SOBRE GÊNIOS COTIDIANOS

     Podem falar o que quiser! Bêbado, não paga, pede a dose ele toma um copo, compra um cigarro ele pede um. Agora, verdade seja dita: nunca vi alguém com tamanha habilidade musical para com qualquer instrumento igual Jean Trambique. Podem dar qualquer coisa na mão dele, ele tira o som com a tranquilidade de quem tira leite da vaca. Acabei de ver na rede social ele fazendo o hit da seleção brasileira no sax. Ele deve ter emprestado o instrumento de alguém, sabe? Aquele empréstimo que você não vê de volta. Habilidade nesses moldes conheci só do Cleitinho na percussão. Já citei os dois aqui em outras ocasiões... Já vi o Cleitinho tocar na caixa de Toddy, com tampa e sem tampa. Também já vi ele arrancar um som do cinzeiro com um espeto de churrasco imitando a baqueta numa caixa. Coisa de gênio, coisas pra poucos.

    É preciso admirar e reconhecer os gênios que estão ao nosso redor. Millôr Fernandes uma vez disse que ser gênio não é difícil. Difícil é alguém reconhecer! Eu sou do tipo que reconhece e aplaude a genialidade que pude observar e conviver de maneira cotidiana. É bom ter ídolos por perto. Já disse para os dois que são meus ídolos: Igor The Voice e Marcelinho. Eles formam uma dupla daquelas incontestáveis. Como Aldir e João, Roberto e Erasmo. É como se um tivesse nascido pra encontrar com o outro e a existência dos dois só fizesse sentido se essa conexão ocorresse. Tenho a impressão de que os dois juntos dão sabores a vida. Na realidade eles são um trio musical, talentoso e filosófico quando soma-se com Ilsinho. 

    Compartilho ainda bancos de praça com meus heróis. E não só na música, tenho heróis em outros campos das artes. Na arte de viver com a poesia pulsando e com os instintos sexuais aflorados está o Doc. Doc mistura a poesia que a gente não vive com a porralouquice que ele vive aos fins de semana. Ele é ator, diretor, roteirista, poeta, professor, viado de bandeira erguida e mais uma caralhada de adjetivos que são méritos dele por tê-los. Tenho muitos outros, mas outro dia eu conto. Os envolvidos aqui estavam todos, hora espalhados, hora juntos, na praça da Faculdade de Filosofia que foi batizada como Ágora, por razões que o leitor deve imaginar. Claro, se filosofava muito por lá, daquela maneira que causa estranheza, que o estudante insiste em demonstrar crente que está abafando, colocando palavras fora do contexto para dizer que seu vocabulário é amplo. Quando misturavam filosofia com maconha, birinaite com teco, a coisa ficava calibrada. 

    Então todos calibrados, prontos pra começar o festival de música acústica que juntava aquela roda de pessoas em torno pra curtir o som e brincar de radinho. Aí que o Ilsinho ficava puto da vida. Chegou um qualquer lá, zé ruela pra burro, pedindo música pro The Voice cantar e pro Ilsinho bater (Cleitinho não gosta muito de ser percussionista na praça, como ele seguraria o cigarro e o copo de cerva? Escolhia os dois). O tal Zé pediu uma, pediu duas, pediu três. Não foi atendido. Até que o Ilsinho decidiu mandar a letra:

    - Pô meu irmão, aqui não é radinho não!

    Sururu formado eu falei malandragem. 

    O Zé decidiu pagar de bicho solto e foi pra cima do Ilsinho. Ninguém conhecia o Ruela e todos estavam a fim de defender seu ídolo, ainda mais no habitat natural dele, a praça de filosofia. Ao mesmo tempo, na praça, começou uma pancadaria do outro lado. Parecia um menor de idade, com a mão na cintura, depois de ter tomado aquela entrada no olho direito, simulando que ia sacar o três-oitão. Em área de malandro essa não cola. O comédia levou logo um sopapo daqui e um de lá, quando surge Jean Trambique, no meio da confusão generalizada, com seu violão cantando qualquer coisa de paz do Jonh Lennon, como um hippie contra a guerra do Vietnã. Conclusão, juventude universitária quer sempre se diferenciar da juventude nativa (que quando se trata de Jacarezinho é bastante violenta) e mostrar seus dotes diplomáticos:

    - Vai beiço, pede uma aí! 

    O lazarento do Ilsinho mandou essa...  Nossos ídolos não são perfeitos. 

terça-feira, 29 de novembro de 2022

DONA NORMA

      Meus domingos costumavam existir num universo encantado, quase que fora do mundo real. Quando criança eu passava religiosamente os domingos com uma senhora chamada Dona Norma, que por sorte do destino, nasci neto dela. Ela nunca foi uma avó normal, como os leitores hão de supor quando escrevesse sobre as avós para outros lerem. Numa coisa sim, ela era idêntica, igualzinha todas as avós do mundo: cozinha. Que mão boa pra tudo Dona Norma possui! Quando se tratava da minha vinda dominical, ela fazia tudo o que se pode imaginar que tenha sabores paradisíacos: torta de abobrinha, bife a cavalo, caçarola italiana, pudim sem bolinha, curau com canela, estrogonofe com champignon, arroz sem uma gota de óleo, doce de leite caseiro, batia no mix um shake, deixava o cáqui de molho, enfim, uma infinidade de delícias que eu devorava até passar mal. Ela gostava de cozinhar para mim, um dos motivos, creio eu, é que esse sujeito que vos escreve comia com gosto e elogiava infinitamente.

    Com ela aprendi uma quantidade significativa de frases prontas que imagino, eram utilizadas desde os tempos idos, lá de seu pai português chamado Bernardo Monteiro. Para elogiar a comida, aprendi: "tá dá pontinha da orelha" ou "o manjar dos deuses". A magia acontecia mesmo quando vinha a música. A capela ela cantava tudo, com uma afinação linda, um agudo de dar inveja, fazia vibrato com a voz. Minha avó tinha um gosto no cantar, que vinha de dentro do seu espírito e saía materializado de poesia. Cantava os sambas de Martinho, Vicente Celestino, os clássicos de Noel, as lendas de Carmen Miranda. Com ela aprendi tudo de um Brasil que só poderia ser apresentado a mim através das interpretações dela. Adquiri fascinação pela letra das músicas, que até hoje me chamam mais atenção que a própria melodia e um apego pelos cancioneiros populares que levavam os versos através dos rádios diretamente aos corações brasileiros. 

    Como o coração dela foi um dos atingidos, sua voz transbordava aquilo que não se define e me atingia. Quando eu aprendia a letra, tão rápido quanto ela, saia fazendo a segunda voz junto e era nesse momento, da minha voz na dela, com ela, que o universo descansava. Que eu saiba, canto desde que existo. Não são poucos os relatos sobre minhas cantorias ainda pititico, mas eu acredito mesmo que meu prazer, mais que isso, minha necessidade em cantar, venha desses domingos ao lado dela. Quando Caetano Veloso escreveu sobre essa força que levava Roberto Carlos há cantar, não estava no ar. Estava dentro dele. Ainda que ele não aceite, estava dentro. Quem plantou em mim essa força, essa vontade de colocar pra fora a dor do mundo foi Dona Norma. 

    Minha vó era boa de dar apelidos que ninguém nunca utilizaria senão ela. Sempre me chamou de "Guinho". Segundo ela vinha de Tiaguinho. Dá pra contar nos dedos de uma mão às vezes em que ela me chamou de Tiago. Memórias muito raras e que minha mente escondeu, pois isso só aconteceu em momentos complicados. Com ela conheci e amei o São Paulo Futebol Clube, paixão eterna enquanto dure minha existência. Ouvi por milhares de vezes aquelas histórias de quando ela se tornou São Paulina e de quando o São Paulo foi campeão do mundo e ela, sozinha em casa, gritava da sacada "campeão do mundo! São Paulo!" Ela dizia que queria me ver jogar no tricolor e que eu iria escrever "Guinho" na camisa. Isso jamais aconteceria visto que sempre fui um perna de pau grosseiro e indelicado com a bola. 

    Nas festas de fim de ano, sem beber, minha vó dançava. Boa no samba, boa no rebolado, boa no funk. Ela descia na boquinha da garrafa todos os anos, deixando os convidados sempre boquiabertos. Com exceção dos fins de ano, nas copas do mundo, ela saía na rua com peitos e bundas de borracha, mas que, de fato pareciam os dela, assustando motoristas que voltavam pra casa após às vitórias do Brasil. Era da farra, gostava de uma boa bagunça e gostava de ser o centro da baderna. Nunca teve tabus, nunca. Falava de sexo de maneira tão aberta e pornográfica, com frases que até hoje alguns amigos meus se recusam a pronunciar. 

    Religiosamente se dizia evangélica. Não frequentava nada nunca. Contava que no tempo dela os crentes sofriam preconceitos, que os cultos eram nas casas e que o irmão dela foi o primeiro a enfrentar o pai português e se tornar evangélico. Norma destilava seu ódio contra a igreja católica, os deuses de barro e os bezerros de ouro, contar pecados pro padre, ria da chamada excomunhão e contava uma piada portuguesa sobre isso. Também odiava pastores larápios, um dos mais xingados por ela era o tal Valdomiro Santiago, que tinha acabado de se autoproclamar "apóstolo" e aí que ela descia a lenha e colocava ele abaixo de cu de cachorro dez graus. 

    Era tudo um show de ilusionismo onde a gente assiste, ri e aplaude. Canta, dança, escuta. Ela dominava as artes e trazia pra varanda um mundo antigo mas potente, cheio de possibilidades. Norma me fazia sonhar, me fazia querer o seu amor de qualquer forma. E eu sempre quero, mais e mais o amor dela. 

    Sempre fui muito egoísta em relação aos domingos com ela, nunca gostei que chegassem visitas diferentes das comuns dominicais. Ciumento. É que quando chegava alguém de fora eu aprendia menos. Aprendia menos canções daquelas maravilhosas, que minha vó tem uma pra cada palavra. Aprendia menos frases e ditados que minha vó tem uma pra cada situação. Absorvia menos daquele convívio que me formou tão profundamente e moldou quem eu sou hoje. Me lembro que quando anoitecia e ia ficando escuro e silencioso como são os domingos, ia me entrando aquele frio na barriga de angústia e medo, era sempre horrível. Eu nunca queria que o domingo acabasse, eu não queria encarar a escola segunda feira de manhã. No fundo, hoje eu sei, queria que aqueles domingos durassem para sempre.

    Hoje aqui, na madrugada de domingo que escrevo sobre você, minha velha, peço pro vento te levar meu beijo e te contar que eu te amo. Ando louco de saudade. 

A LOIRINHA DO VOVÓDKA

     Eventos de rock nunca estiveram no meu cardápio. Considero chulo e xucro. Me agoniza ver aquele número de pessoas com camisetas pretas com o nome de alguma banda conhecida do meio, outras mais populares, outras nada populares. Aquela reprodução mesquinha de cultura americana fazendo meia nove com conservadorismo brasileiro deveria incomodar qualquer cristão. O pessoal do ramo acha o máximo, alguns se orgulham tanto que perdem o senso do ridículo: "isso que é música de verdade" ou "não é o lixo que se ouve hoje em dia". Blá, blá, blé. Considero a poluição sonora do have metal (é assim que escreve? não faço questão) as vezes pior que uma broca na rua de casa domingo de manhã. Quiçá pior do que a batida suingada do funk, repetidas vezes sensual.

     O orgulho às vezes nos trai, já vi de perto casos de pessoas que se orgulhavam do que no fundo, os envergonhava. Por exemplo aquela sua tia barraqueira que depois de ter enchido o tanque e armado o maior vexame e sem razão diz "eu sou assim, eu falo mesmo!" Percebeu? Mas não é só o orgulho roqueiro que me incomoda, é a cultura entorno desse orgulho. Você leitora há de convir, não há nada pior do que um ambiente em que se está cercado por essas seitas musicais exclusivistas e autoritárias, onde não se pode variar no estilo, inimigos do ritmo e da diversidade. Nesse ponto vale para todas as tribos. Os sertanejos e seus churrascos onde só se pode ouvir aquelas músicas idênticas umas às outras, com cantores interpretando de maneira idêntica um bode com dores intestinais. Os funkeiros com aqueles cantores que forçam a voz de fanho e ainda remixam. Etcétera etcétera. Aqui cabe todo mundo.

    Mas estamos aqui para contar o causo da noite que estávamos num bar meia-meia-meia de seita rockeira que já partiu para a cova em frente à sua localização, que era o campo de futebol conhecido como "aerozão" onde, reza a lenda, ocorreu mais assassinatos do que gols. Chamava-se capitão beer e nunca foi um local muito frequentado por mim, a final me considero uma pessoa nanoeclética (qualquer dia eu trago a definição). Estavam lá Jean Trambique, Wildes Masterchef, um japonês professor de Geografia formado em História, Gabriel Bueno e eu, tristemente. Nenhum de nós escapa quando se trata de contar os amigos roqueiros que temos. Alguns deles nunca mais voltaram dos quinze anos colegiais, esses por sorte sim. Caímos lá por conta do japa que tava bancando a brincadeira. Notoriamente ele estava precisando de companhia, gostava de sinuca e dentro do bar jogava com o cigarro no canto da boca, meio broxa, apontado para baixo. Saía repetidas vezes para fumar e como todos são bons acompanhantes saíamos para fumar também, até que conseguimos uma mesa lá fora em meio há jaquetas de motoclube e camisas pretas de bandas pouco populares. 

    Era época de eleição municipal. Até aí nada de mal. Ou tudo, quando chega na mesa uma mulher já de meia idade, com camisa preta bem abotoada, pulseiras pretas com pontas imitando ferro, calça preta e olhos bem pintados - adivinhem? - de preto. Ela pede licença, interrompendo um assunto qualquer de onze da noite e se apresenta. O nome dela, meus caros, minha memória por sorte não fez backup. Entregou os santinhos e começou o discurso pra vereadora: 

    - Eu tô sempre aqui no Capitão sabe? Sou rockeira mesmo. Minha foto aí no santinho não está de preto porque o partido não deixou. O partido é evangélico sabe? Por isso... Eu briguei muito, queria que a foto fosse de preto, sou roqueira de verdade (ela insistia nisso, crente que algum de nós votaria nela pelo simples fato de ser roqueira e de estarmos ali - num bar de roqueiros - supunha que votamos em roqueiros, coisa que em relação ao meu voto já estava mais que descartado. Imaginem votar em roqueiro e em partido evangélico ao mesmo tempo. É como comprar um passaporte pro inferno com chances da alfândega de lucífer te barrar na roleta). 

E prosseguiu:

    - Falta apoio pros roqueiros da cidade! Não tem mais evento de rock, acabaram com a noite do rock, não tem mais o clube do rock no espaço cultural! Por isso sou candidata! Se vocês puderem votar em mim...

    Não contendo minha indignação, afirmei que não votaria daquela maneira elegante que brasileiro cordial destaca quando quer dizer que não vai votar no sujeito "já tinha candidato!" Deve-se entender que os candidatos que afirmamos ter não necessariamente existem, mas servem para nos livrar do fardo de guardar dentro de nós aquele desejo de ter dito ao candidato que você não votará nele. Jean Trambique, que comungava com certo conservadorismo social não radical decidiu questionar de maneira leve e educada: 

    - Mas você é candidata por isso?

    - Sim! Precisamos de roqueiros lá para fazer as coisas pelos roqueiros da cidade! (puta papo politizado) É que o partido não deixou eu colocar meu apelido no santinho, mas eu sou conhecida como a loirinha do vovódika. Vocês devem lembrar, a gente já tocou muiiiito aqui no capitão, tenho certeza que vou acabar perdendo votos por isso, muita gente me conhece como a loirinha do vovódka...

    É isso. O cabelo dela nessa ocasião estava preto. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

CHÁ INGLÊS NO BAR DO DUNGA

     Sexta-feira fui no bar do Dunga, com a intenção de reclamar da vida, reclamar da escola, reclamar dos alunos e reclamar de qualquer coisa que tenha me causado o mínimo de desconforto durante a semana que eu só trabalho nos horários dos jogos e não posso acompanhar a Copa do Mundo de Futebol que está acontecendo lá onde o Judas perdeu... Por sorte, os professores e estudantes brasileiros estão salvos pela Pátria de Chuteiras e são liberados para assistirem o jogo do Brasil tomando aquela amarelinha gelada, vestindo aquela amarelinha desbotada e pouco animadora nos tempos que antecederam o primeiro jogo do Brasil, explicarei minhas angústias.

    Eu tenho o costume de me preparar para a copa do mundo. É coisa séria, evento importante, ritual de reunião amiguifamiliar, tem toda uma cosmologia, sessões de benzimento, misturas de sacro com profano e aquela liturgia característica da região do Brasil que você vive, que eu não sei qual é mas tem, existe. Esse ano comprei duas camisas da entidade sacrossanta chamada seleção brasileira, detentora das maiores glórias e dos dois maiores fracassos da história do futebol. Fato é que tanto as vitórias quanto as derrotas moldaram a nação, como você sabe, Nelson Rodrigues descreveu, apontou e grifou. Nós estamos tendo sérios problemas pra abraçar a seleção brasileira nesse ano. Um deles, não é de hoje, é a apropriação do símbolo máximo nacional pelos nazistas. Estou falando da bandeira do Brasil? Não! Estou falando da camisa da seleção. Esse é o maior símbolo que reuniu milhares de brasileiros em torno de uma única causa: trazer a taça. Nunca a bandeira do Brasil teve esse papel unificador e pacifista. Como a amarelinha desbotada foi durante muito tempo uma unanimidade, os nazistas se aproveitaram para utilizar da imagem positiva que ela tem na sociedade brasileira. Por isso, nesse ano, escolhi uma azul e uma branca para acompanhar a Copa do Mundo. Branca? Pois é, pode até estar na moda e é utilizada pelos não-nazistas brasileiros para não serem confundidos, mas é a camisa do azar, da tristeza, da melancolia e do silêncio. Principalmente o silêncio. A derrota de 1950 só não ecoa mais alto porque derrubaram o Maracanã, palco da desgraça na copa do mundo, para que houvesse outra copa do mundo, dessa vez pros ricos. 

    Segundo ponto de conflito com a brasilidade é a época. Tenho certeza que essa copa vai atrapalhar o Natal de cada um de nós caso nossa entidade sacrossanta saia derrotada, o que é culpa em número, gênero e grau da dona FIFA e seus mandos e desmandos. Escolheram um país sede onde os homens não podem dar, as mulheres não podem demonstrar afeto e os alemães não podem apreciar o melhor de sua cultura: aquele líquido amarelinho (o deles é mais escuro que o nosso). Se nós tratamos a Copa como um evento de transição, um ritual de mudança de hábitos e costumes e esse ritual atrapalhar outros tão importantes quanto para nossa cultura como natal e ano novo será um crime imperdoável da FIFA com esse povo que ensinou os outros países a jogar futebol para que o evento mundial dela tivesse a mínima graça. Terceiro: nosso craque, camisa dez, decidiu ficar do lado dos nazistas e prometeu um gol para eles, que não sairá tão cedo. Isso, gera insatisfação entre os vencedores do pleito eleitoral e satisfação entre os derrotados não-assumidos. Incomoda por conta da unidade popular, que agora se divide com um progressista craque chamado Richarlison, esse veio pra trazer paz mas ao mesmo tempo trouxe a espada. 

    Tudo isso foi esquecido no momento que o Brasil entrou em campo com suas cores, seus anseios e suas feridas. O sentimento foi de paz e de saudade de torcer por um país que chutou o nazismo pra escanteio, voltou a sorrir para seu próprio povo e sorriu graças aos pés dessa uma meninada da nova geração boa de bola. Já no primeiro jogo, esses meninos que nasceram nessa fábrica mágica de produzir jogadores de futebol em campos de várzea, abraçaram nossa nação com uma atuação segura e eficiente. Ali, todos nós, vivemos a plenitude do velho Brasil de volta, em todos os sentidos.

    E o bar do Dunga com isso? Já fugiu do assunto... Não, calma. Estavam na mesa ao lado seu Arlindo e seu Silvio, entidades (vivas) que habitam por lá. Eles comentavam sobre a seleção inglesa, apontada pela mídia como uma das favoritas para levar o mundial, causo que ocorreu só uma vez e sob circunstância duvidosa. Por enquanto, os ingleses venceram o primeiro jogo de maneira convincente, mas naquela noite tinham penado, num empate feio com os Estados Unidos. Os comentários dos velhos não são recomendados para as crianças, então tirem-as da sala:

    - Falam que Copa do Mundo é só timaço, timaço o caramba! Estados Unidos e Inglaterra parecia um jogo Palmeira e Corintia. Jogo sem graça, amarrado, feio pra caralho. Depois vem falar que Copa do Mundo é top, top o cacete rapaz, jogo feio do caralho!

domingo, 27 de novembro de 2022

SALCICHA EM CONSERVA

     Estávamos todos, todos mesmo, todo mundo, no bar dois irmãos. Esse é o bar que aos domingos e feriados sede seu espaço para a velha guarda do Norte Pioneiro do Paraná botar pra quebrar na musicalidade ao vivo. Como buteco é um espaço aberto, plural, democrático e brasileiro, o público que acompanhava as canções matinais de domingo e de início de tarde era tão brasileiro como os músicos. Da mesma forma que tinha de tudo e Jacarezinho incluí o restante do mundo dentro da totalidade estavam na apreciação os músicos universitários, que sem mais delongas eram bolsistas pobres. Igor, chamado "The Voice", um dos mais magníficos cantores que conheço, Cleitinho, chamado "Cueio" um dos maiores percussionistas que eu conheço, Ilson de Oliveira, chamado "Ilsinho" um malandro afiado até demais, Marcelo Germano, chamado Marcelinho, uma das pessoas mais doces que eu conheço. Manoel, chamado Mané, gente finíssima. Pô, já falei, tava todo mundo!

    Cervejas baratas eram as únicas apreciadas pelo poder aquisitivo desses jovens cabeludos em suma maioria. O único alimento que podíamos ingerir era a deliciosa salsicha em conserva, que custava 50 centavos cada, vem fatiada e com palitos Gina e se o leitor não gosta por favor, feche essa aba e não volte mais. Pra rebater, desciam rabos de galos e marias moles. Cada um tinha sua estratégia de ganhar o domingo no bar pra sair por cima. Eu encostava no idoso e levava aquele lero que fazia com que o idoso pagasse uma cerveja. Modéstia à parte, sempre cativei. Pra descer outra, bastava o The Voice abrir seu gogó na hora da pausa dos senhores. Já desciam duas, três. Marcelinho caprichava no acorde. Ilsinho caprichava no bongo e ia... "Essa daqui tá paga pra vocês!" "Aeeee!" "Toca aquela!"

    Nós sempre fomos os caras que apreciavam as histórias de botequim como cronistas que um dia narrariam nossas vivências cotidianas pelos botequins mais vagabundos que Moacyr Luz e Aldir Blanc narravam na canção "Pra que pedir perdão" que recomendo muito como trilha sonora desse texto, para dar sentido maior aos fatos inegáveis que esses olhos viram antes da terra comê-los. O samba é bem didático. E samba era o que não faltava nunca nos nossos repertórios... É, preciso me retratar: nenhum de nós queria ser cronista de pomba nenhuma. A gente queria mesmo era ser malandro, ser bamba, ser sambista e ser, pasmem, reconhecidos por isso.

    Cleitinho já ia pra outro tipo de malandragem, além de conhecer até os ladrilhos do bar, gostava é de arrancar uma graninha na sinuca. Ou então, arrancar um maço de Eigth pra dividir com todos os universitários que passavam em frente dele. Como ele filava de todo mundo, quando notavam que tinha um maço, só pela moldura que ficava o bolso da calça, já saíam cobrando restituição. Isso fazia com que o esforço de vencer a boa galera da terceira idade na sinuca fosse maior, pra garantir mais uns soltos. Numa dessa de sinuca, música popular, tabagismo, jogo do bicho e música sertaneja, no balcão rolava um desabafo com um dos irmãos. 

- Agora ela foi de vez Serginho, de mala e tudo. Diz que não volta mais, já faz duas semanas.

    Eu prestava a atenção nessa fala miúda e lamentosa, vinda de um cara já com seus 50 anos, visualmente abatido e cabisbaixo. Sabe-se que bares no Brasil tem função de recreação e também função de lamentação. É local sagrado, com suas entidades, suas lendas, seus mistérios e fantasias. Todo bar que se preze deve ser cercado de mistérios e de fantasmas, que rondam seus atuais clientes e degustadores como um espectro que sempre ronda a Europa, independente da época e até do continente. O Brasil que o diga! 

  Osmar cantava aquelas populares músicas sertanejas, Jânio tocava, todos acompanhavam. Já passava do meio dia, Ilsinho trocava a pele do pandeiro. Mané buscava uma Romarinho. Cleitinho mirava uma bola oito. Igor engolia a dose de rabo de galo, quando a harmonia é rompida pela ruiva. Ruiva? É leitor, uma ruiva que invadiu o bar e proferiu logo uma sentença ao miserável do balcão: 

- Olha essa barba, olha esse cabelo, olha essa roupa! Você parece que está largado!

- Você largou de mim, fiquei largado...

Nunca vi um bar rir tanto, tão espontaneamente e ao mesmo tempo como nesse dia. O tempo foi perfeito, chamam de timing. Fez-se até silêncio antes da pronúncia, como aquele silêncio no estádio que antecede por milésimos de segundos o grito de gol. No entanto, ria-se de uma tragédia em que todos nós, mortais, estamos submetidos, passamos e passaremos. Como se ri de uma frase tão sincera e cruel? De uma desgraça que todos nós nos sujeitamos? É, os bares escondem esses segredos, lá também se ri da própria desgraça, como se ri da própria sorte quando se acerta uma centena. Essa foi na cabeça. 

sábado, 26 de novembro de 2022

O PALETÓ DE PAUS DO RUBINHO

      - Ivone, me empresta uns 30? Te pago segunda. Acabei de entrar na traseira de outro...

    Nilton era mais um caso de internação. Não pelos motivos que o caro leitor deve supor, pelo conteúdo até agora apresentado, mas por motivos colaterais relacionados. Se você tem um vício, cuide dele. No fim, a sensação de poder que nos dá ao ter, de alguma forma algo, ainda que um vício, vale. A situação que o malandro se enfiou era séria: três filhos pra criar.

    Deveria ter posto criar entre aspas. Os filhos ficavam mesmo pra Luci se virar, alimentar, limpar, lavar, educar, amamentar, trocar, pentear, vestir, pagar, curar, ninar e todas as outras funções de uma mãe que a te pariu esteve submetida com algum êxito. Nesse país esse nem sequer é problema. E nem o vício. O problema de quem empresta dinheiro miúdo de muita gente é que a fama corre com 30 cavalos de potência, mas eram os cruzeiros que davam pra arrancar de cada marmanjo que o cruzasse. Quando os marmanjos manjaram, a saída foi ir pra família. Pede pra cunhada, pede pro primo, pede pra vovó. Pra mãe dele não pedia, a finada senhora deu o toco na hora de juntar as sandálias. Niltinho emprestou pra pagar o velório e você já sabe... Só não emprestava de agiota, dessa água nunca bebeu. Cão bebe até a água que reflete a lua na poça da rua mas não come lavagem. Ele era por aí...

    Rubens não, ah Rubinho. Rubinho tinha juízo. Sempre pobre, pouco ambicioso, não bebia, não fumava, de vez em quando metia, mas metia mal. Tinha uma casa própria, lá onde o Judas perdeu, só que tinha. Foi casado pouco tempo. Ficou viúvo. Só anos passados que ele frequentou umas boates duvidosas, justiça seja feita ao Rubinho, poucas vezes e eram visitinhas rápidas, consoladoras e sem álcool e sem tabaco e com pra-mil. Fazia mal pro coração, mas Rubinho não demonstrava importância.

    Rubinho não aparentava ter problemas de saúde, era sujeito calmo, demonstrava humildade e gostava de comprar picolés das crianças que passavam vendendo com aqueles apitos agudos que vinham nos sacos de bala. Uma vez Niltinho e Rubinho se conheceram. Era aniversário de uma criança, filha da tia, prima do outro, um troço assim. O que importa é que os dois estavam presentes e se trombaram várias vezes na hora de buscar bolinha de queijo, tanto que uma hora a conversa foi inevitável

    - Gosta de Bolinha né?

    - Deu pra ver que eu gosto um pouco.

    - Aproveita que é de graça.

(bem papo fuleiro de quem só quer pegar o teu e tchau)

    - Não como salgadinhos à vontade deve ter um século...

    Rubinho abaixou os olhos e fitou Nilton com cara de pena. Era a brecha que o sistema queria... Nilton - sempre com cartas na manga - saiu de lá com 300 no bolso, garantiu a noite e como de costume, quando descolava não aparecia em casa. Ele ficou de pagar assim que fosse contratado, contou uma história de entrevista, empresa boa, horário bom e o escampau. Pobre Rubinho... Caiu no conto do vigário. Ou do Larápio. Rubens tinha mania de acumular os problemas e evitar pensar neles, homem de bom coração (não no sentido literal mas sentimental) só que uma hora, nas noites angustiantes os problemas vinham, surgiam vestígios de pontadas no peito e batimentos velozes... Essas noites eram mais difíceis de atravessar.

    Batimentos velozes tinha Nilton quando colocava seu vício para ser exercido. O problema era quando ele era executado dentro de casa. Com as crianças e Luci assistindo. Tinha uma regra exclusiva: as crianças não podiam chorar, isso atrapalhava o andamento e incomodava muito os "amigos". Sobrava pra Luci mimar as crianças enquanto os homens se perdiam, juntavam dinheiro, somavam e dividiam. Um tempo depois, quando a situação já estava ficando insustentável Nilton deixou as noitadas em casa e começou a frequentar outro ambiente, que Luci ainda não sabia qual era. Naquela tarde, o telefone de Ivone tocou e Luci atendeu: Rubinho morreu. Parada cardíaca. Não demorou muito para que as duas estivessem de roupa prontas para ir até a funerária abraçar a família e prestar as primeiras condolências às pessoas mais próximas do defunto. Como o corpo já tinha sido liberado no hospital, foram direto para a funerária que iria preparar o corpo. 

    Chegando lá naquele ambiente leve e agradável, as duas passaram pela porta de vidro, não vendo ninguém na recepção, viraram pra esquerda e tcharam! Sentados na mesa com suas cartas em mãos estava Nilton, com seu vício no baralho, jogando dentro da funerária. Aí não. Esse local de preparação para o cortejo final, onde algodões são enfiados nos narizes e ouvidos, dente de ouros e sapatos são furtados deve ser respeitado por todo bom cristão e ainda que não cristão, por todos que lavam os túmulos nos dias que antecedem o finados para demonstrar cuidados e carinhos com os falecidos da família (para os outros familiares notarem). Ele recebeu os tapas merecidos das duas, acaloradas e nervosas com tamanho descaso. O vício de Nilton sempre foi o maldito baralho, todos sabiam e dessa vez as cartas não estavam marcadas. Mas na funerária, aí já era demais. Expulso de lá antes da chegada do corpo de Rubinho, senão estariam na missa de corpo presente dos desenganados três dos que Nilton mais devia. E espiritualmente entraria na mesa o três de paus, o sete de espadas e a coroa do rei. Sem dinheiro, sem valetes e sem compaixão, esse ocorrido mariliense antecede a despedida derradeira do homem de coração frágil que era Rubinho. Lamentável. 



sábado, 19 de novembro de 2022

JANE E IVO

     Toda a estrutura dos bares da cidade conhecia o glamuroso casal sem-vergonha, daqueles que cantou Zeca Pagodinho, com diferenças e semelhanças. Há quem diga que casal sem-vergonha é tudo igual, eu particularmente discordo. Todo casal é sem vergonha, sem exceção. Os excessos estão aí... Quando digo "toda a estrutura" está incluso o espaço geográfico dos bares, seus ladrilhos vermelhos, seus balcões de madeira, os potes que giram onde ficam os piores tipos de bala, as estreitas paredes do banheiro junto com seu odor característico. Esses espaços conheciam Jane e Ivo tanto quanto o casal os conhecia. 

Além dos elementos imóveis que compõe os bares, o principal: os frequentadores dos botecos, que não são poucos, sabiam bem, além da conta. Quarta-feira, no balcão do Bar do Amnésia, Olavo comentou:

- Ontem a Jane virou a cara do Ivo, pá-tá! Ida e volta. 

- Mas outra vez?

- Esses dois são sem vergonha!

- Semana passada o Ivo jogou o copo de cachaça na cara dela e ela já logo revidou! Jogou a garrafa. Sorte que não pegou, passou na trisca.

- Onde que foi?

- No bar da Tina.

O balcão todo comentava a degradante vida amorosa de Ivo e Jane, que por sua vez, não costumavam comentar a vida amorosa de ninguém. O folclore entorno dos dois era tanto, que já não se distinguia ficção e realidade. O que pouco importa, visto que superior é a personagem e sua essência. Aí que está! Essência mesmo, a mitologia de Jane e Ivo era real. 

Jane era uma cozinheira de primeira linha, podia ter tomado o porre que fosse, levantava cedo. Preparava o café. O primeiro gole do dia é posto aos pés de São Benedito, junto com um pai nosso sussurrado pela metade. Depois, ela ia até o espelho do tanque, pegava o óleo maria e passava no rosto, como se esse fosse o creme caro das madames da cidade. Todo santo dia, seus primeiros atos matinais se resumiam a isso. Café, São Benedito, Oléo Maria. O que mudava era o prato a ser preparado, o sabor das marmitas que ela fazia sob encomenda e ganhava até um bom dinheiro. 

Já Ivo acordava uns 15 minutos mais tarde, com outra preocupação matinal: seu bigode. Fazia a barba e acertava o bigode no espelho do banheiro, com certa velocidade pra depois poder gastar alguns minutos apreciando a maneira precisa com que ele conseguia manter o bigode um dedo indicador abaixo do nariz. A distração com o bigode ajudava-o na vida corrida que ele levava. Ivo era carteiro dos correios, o primeiro da leva dos terceirizados. Se sentia funcionário público, coitado. Coisas que a ilusão permitia. Manhã e tarde embaixo de sol e de manga longa e calças azuis. Seu alívio era na hora do almoço. Comer a comida espetacular preparada por sua maior paixão.

Ivo conheceu Jane dez anos antes, adivinhem... No bar da Diva, quando esse ainda era um bar "família", onde se podia namorar sem o murmúrio dos bares menos sofisticados, com sua discriminação ao amor. Os dois se apaixonaram logo após a vida ter armado a coincidência cupido, os dois tinham pedido a mesma dose de Cynar, uma bebida nem tão comum. Daí em diante é história regada à álcool, tabaco, tabefes e lógico, amor. 

Os bares que Jane e Ivo frequentavam serviam para a divulgação culinária dessa verdadeira chefe de cozinha. Que mão boa! Que talento! Os frequentadores do Escritório (bar em frente à casa da Jane) conheciam de perto, tanto o cheiro quanto o sabor. Jane tinha umas mesas de bar na varanda, com toalhas listradas e um cinzeiro sob cada uma, onde servia o almoço para quem não quisesse levar a marmita pra comer sei lá onde. Se havia dúvidas sobre sua conduta com Ivo e vice-versa, não havia nenhuma sobre sua qualidade culinária. Isso é, apesar da má fama que o casal emanava, mantinham o certificado de moderação e apreço da galera

Cada dia vinha um elogio: 

- QUE RABADA! 

- QUE MOQUEQUINHA! 

- PENSA NUM BAIÃO DE DOIS...

- NOSSA, A JANE FEZ UM CHARUTO... VOU TE CONTAR...

O sistema de exploração capitalista soube captar muito bem o dote de Jane para a cozinha. Os donos dos bares da cidade, para atrair mais clientes em suas dependências, começaram a oferecer pratos da Jane aos fins de semana em troca adivinha do quê? De birita! Claro! Esse é o ponto fraco um a cada três brasileiros. Quando Jane cozinhava, ela e Ivo podiam tomar à vontade. Aí que morava o perigo... 
Certa feita, lá pras tantas, quando os dois já estavam naquele modelo, a água começou ferver. Jane fumava Dallas azul e Ivo fumava Dalton vermelho. Quando o cigarro de Ivo acabou, ele se levantou pra comprar outro maço. No caminho, encontrou Sandra. Uma morena linda, de vestido verde e cabelos ondulados, já mamado Ivo mandou a letra: "Tu num é ruim não hein?". Sandra, que não tava pra papo de bigode velho, acertou uma bem em cheio na fuça do Ivinho. Pra quê! Jane grudou no cabelo da morena e sem deixar ela cair aplicou o golpe: meteu-lhe a brasa do cigarro bem na curva do seu cangote... Depois daquele grito agudo ela soltou o verbo: 

- QUEM TEM DIRETO DE DAR NA CARA DELE SOU EU SUA PIRANHA!