O sábado no bar do Paulinho tinha churrasqueira acessa e gente saindo pelos bueiros. Eu cheguei às quatro, mas eles chegaram às nove. Aconteceu que o Zé João tinha acertado na cabeça do Urso. Jogou 9390 e saiu pro abraço. Milhar seca. O churrasco rolando era por conta do Zé João, explicada a quantidade de adeptos. Homem de largo coração caridoso, Zé João tinha realizado outra proeza na noite anterior: os últimos integrantes a deixar o bar do Paulinho, pra lá da meia noite, seriam premiados com uma noite naquela boate duvidosa, com o abastecimento pago pelo Zé. Ele não contou pra ninguém, só anunciou hora que bateu o relógio no doze. Tinham sobrado o professor Abobrinha, Maneco e o próprio dono do estabelecimento. Na verdade, estava lá também o Jorjão Perna, mas esse foi o único nobre a recusar uma noitada de sexta-feira no bordel. Jorge já tinha passado da época, amadureceu demais. Abriram o jogo pra todos os integrantes do bar, com carteirinhas de bater ponto ou não, da aventura jovial da noite anterior.
- Mas ô Zé, você vai pagar tudo, tudo?
- Tudo tudo não! Vou pagar a cerva que já é cara pra danar. Bora aproveitar, não é todo dia que se ganha numa milhar dessas.
- ô Zé, mas ficar só de olho não dá não, porra. Tem que ao menos dar aquela brincada pra ter emoção.
- Ah, lógico. Emoção vai ter! Aqui com Zé é diversão garantida. Aliás, você vai ver Maneco. É só eu chegar lá que a dona já vai arrumando o lugar. Logo já vem elas, igual urubu quando vê carniça. Quando eu encosto elas sabem que dá lucro. É o ditado, quem nunca comeu se lambuza até o dedão do pé.
Enquanto Paulinho ia descendo as portas de ferro e desligando os freezers, separou o uísque barato pra tragar no caminho, Zé João ia contando vantagem sob o puteiro que visitava vez em nunca. A gente sabe que é mentira. Aliás, em balcão de bar, boa parte do que se diz é uma adulteração com emoção da verdade. Às vezes se emocionam tanto que a verdade é jogada pra escanteio. Há de ter critério para saber diferenciar um relato de balcão de um relato venérico, digo, verídico.
Você leitor sabe que os bares do interior de São Paulo são repletos de conversadorismo tradicional. Saliento: o tradicional é aquele que respeita a família, mas adora uma boate suspeita. Que é contra todo tipo de viadisse, mas evidentemente quatro homens nus se divertindo com uma meretriz não se enquadra no contexto. É só uma brincadeirinha.
Chegando lá, Maneco começou a enlouquecer. Parecia que tinha mandado três carreiras de uma vez, os olhos arregalados. Quase um virgem no bordel, com um único detalhe que tinha três filhos, ao menos registrados no cartório estavam, pois entraram na justiça por pensão.
- Táquepariu que que é isso aqui Zé. Você me trouxe pro paraíso. Bendito urso porra!
- Não fala em urso não cara, que eu me lembro dela. Se tô aqui é pra esquecer. Dá uma gelada!
- Sabe Paulo, a gente vence no bicho e pra ficar depressivo é só depois de gastar tudo. Minha vida tá uma porcaria e o problema não é dinheiro não. Minha filha decidiu que não vale a pena falar comigo, que eu sou um ser humano daqueles que não valem um boi. Já meu filho, minha impressão é que ele não gosta, mas atura. Mora fora, quase nunca liga e quando liga é pra pedir. Você sabe, quando filho pede a gente dá um jeito e manda. Faz anos que eu tô mandando e ele não serviu pra discar no meu aniversário. Porra, mandou um zap. (Quando quem tá bancando começa a abrir a caixa você é obrigado a dar atenção) Um zap de aniversário. Minha mulher não saí de casa porque a mãe morreu, se não, já tinha dado no pé. Agora ela dorme no quarto de visitas e levou até o guarda-roupas pra lá. Disse que tá feliz, que eu ronco demais, que resmungo de manhã. Ela não! Ela é perfeita! Não bebe, não fuma. Mas cuida da vida da vizinhança toda, sabe direitinho o nome de cada cristão daquele bairro, quem é casado com quem, quem não teve paz, quem trai, quem sofre junto com quem é feliz. Pô, que merda! agora eu preciso - desce mais uma - me encontrar comigo. Paulo, a família que eu dediquei minha vida virou as costas pra mim Paulo. Faz três anos que não tenho natal em família, aquele último foi muito bonito. Valeu a pena. Acho que três anos atrás eu tinha menos estabilidade e mais felicidade. As crianças eram menores e menos geniosas, agora tudo mudou, parece aquela fase da ignorância, da incompreensão. Eu tinha uma vida mais leve, mais amena. Sabe ir pra praia com a família? Aquelas conversas no caminho, o café no stop do pedágio, as crianças de fone, mão na coxa da mulher... Valoriza isso Paulo, isso é vida de verdade. Nunca mais fiquei num hotel com ela, nunca mais alugamos uma casinha na praia, nada. Só rotina, rotina. Acho que é isso que mata, a porra da rotina. Quando a rotina te domina é tudo no modo automático, você nem reflete, só reproduz. Mas aqui não é lugar pra conversar isso caralho, aqui não dá pra ser triste. Hoje eu tô feliz.