terça-feira, 12 de setembro de 2023

FABINHO

Ontem, depois que o sol se pôs, fui abatido pela notícia na rede social: morreu o Fabinho. Porra, que merda. Primeiro, liguei para minha mãe que recebeu a notícia com semblante de tristeza. Depois, liguei para o Paulinho, que já sabia de todo o ocorrido.

A questão é que ninguém tinha um A para falar do Fabinho que não fosse de sua voz mansa, sua altíssima educação, seu belíssimo dom para a música. Fábio era um homem doce que compartilhava sua doçura. Eu o conheci no Bar do Paulinho, falávamos de música, cinema, cultura em Marília. Me recordo vagamente do lado do balcão que estávamos quando o perguntei sobre os projetos que ele havia participado na Secretaria da Cultura e ele, sempre, conversou com entusiasmo e fineza.

Se bem me lembro, fui apresentado à ele por minha mãe ainda menor de idade, era ela que ficava do lado de trás do balcão, comandando a freguesia. Minha mãe me incentivava a conversar com pessoas que ela considerava cultas e em se tratando do Fabinho ela acertou na mosca. O problema é que ele era chegado na cachaça. Problema? Talvez. Fato é que Fabinho, mesmo quando mamava oncinha pra tombar e cair, não perdia a elegância. Não alterava o tom de voz. Um gentleman. Sem contar que um boêmio de mão cheia, conhecido nos pés sujos menos abastados de toda a cidade. Era, sobretudo, um frequentador assíduo, batedor de cartão dos bares com balcões. Pra ele, bar sem balcão para apoiar os cotovelos não era bar para cachaceiros. 

Vejo aos meus olhos passar flashs do Fabinho, principalmente dele de moto. Magicamente, nos dias em que a intimidade com a onça aumentava, a moto parecia guiar ele de volta pra casa. Enaltecer somente a moto seria uma terrível injustiça. Também ao motorista os louros, que não tirou a vida de ninguém e nem a sua, apesar da apreensão que os amigos ficavam em ver ele indo embora em insalubres condições. Quando telefonei para minha mãe, ela foi convicta: "acidente de moto, tenho certeza!"

É verdade que Fabinho nos deixou jovem. Também é verdade que fará falta na vida de muitas pessoas, mas principalmente de sua mãe. Ele era o seu grande companheiro. Ela, uma simpática e educada senhora, que já passa dos oitenta anos. Os dois viviam juntos, na mesma casa, desde que a vida os colocou como mãe e filho. Fábio saiu, na transição da adolescência para a vida adulta, foi para o Conservatório em Tatuí aprimorar seu talento nato, apoiar sorridente seu cotovelo em outros balcões, sentir o cheiro de novos cangotes. Mas depois retornou para o seguro porto que a asa amiga de sua mãe sempre lhe ofereceu. E eram bons amigos, que se divertiam, almoçavam, sorriam juntos. Quando Fabinho se perdia na cachaça, ouvia de cabeça baixa os conselhos amorosos dela.

Acho que a última vez que nos encontramos foi na casa da Thaís. Eu passava em frente, já abastecido pelo boteco da rua de cima e ela me chamou para entrar, já abastecida pelo boteco da rua de baixo. Lá estava o Chuper, Fabinho, Nene, até a Dona Zélia, lidíssima mãe, senhora e dona do lar. Conversamos um bom tempo, discussões acaloradas sobre povos indígenas e o direito deles ao território. Bíblia. Deus. História e música. Cigarros, copos americanos e bauretes. Vivemos!

Fabinho também viveu como quis (um brinde a isso) e Deus lhe concedeu um afago, por merecimento, pela sua obra, pela sua gentileza de sempre. A morte foi gentil com ele. Sonho de muitos, ela o encontrou dormindo. Na noite anterior, ele deu um beijo de boa noite em sua mãe e se deitou. Agora, o poeta está dormindo. Sonhando com um dia lindo que certamente vai raiar.

Valeu Fabinho!