Meus domingos costumavam existir num universo encantado, quase que fora do mundo real. Quando criança eu passava religiosamente os domingos com uma senhora chamada Dona Norma, que por sorte do destino, nasci neto dela. Ela nunca foi uma avó normal, como os leitores hão de supor quando escrevesse sobre as avós para outros lerem. Numa coisa sim, ela era idêntica, igualzinha todas as avós do mundo: cozinha. Que mão boa pra tudo Dona Norma possui! Quando se tratava da minha vinda dominical, ela fazia tudo o que se pode imaginar que tenha sabores paradisíacos: torta de abobrinha, bife a cavalo, caçarola italiana, pudim sem bolinha, curau com canela, estrogonofe com champignon, arroz sem uma gota de óleo, doce de leite caseiro, batia no mix um shake, deixava o cáqui de molho, enfim, uma infinidade de delícias que eu devorava até passar mal. Ela gostava de cozinhar para mim, um dos motivos, creio eu, é que esse sujeito que vos escreve comia com gosto e elogiava infinitamente.
Com ela aprendi uma quantidade significativa de frases prontas que imagino, eram utilizadas desde os tempos idos, lá de seu pai português chamado Bernardo Monteiro. Para elogiar a comida, aprendi: "tá dá pontinha da orelha" ou "o manjar dos deuses". A magia acontecia mesmo quando vinha a música. A capela ela cantava tudo, com uma afinação linda, um agudo de dar inveja, fazia vibrato com a voz. Minha avó tinha um gosto no cantar, que vinha de dentro do seu espírito e saía materializado de poesia. Cantava os sambas de Martinho, Vicente Celestino, os clássicos de Noel, as lendas de Carmen Miranda. Com ela aprendi tudo de um Brasil que só poderia ser apresentado a mim através das interpretações dela. Adquiri fascinação pela letra das músicas, que até hoje me chamam mais atenção que a própria melodia e um apego pelos cancioneiros populares que levavam os versos através dos rádios diretamente aos corações brasileiros.
Como o coração dela foi um dos atingidos, sua voz transbordava aquilo que não se define e me atingia. Quando eu aprendia a letra, tão rápido quanto ela, saia fazendo a segunda voz junto e era nesse momento, da minha voz na dela, com ela, que o universo descansava. Que eu saiba, canto desde que existo. Não são poucos os relatos sobre minhas cantorias ainda pititico, mas eu acredito mesmo que meu prazer, mais que isso, minha necessidade em cantar, venha desses domingos ao lado dela. Quando Caetano Veloso escreveu sobre essa força que levava Roberto Carlos há cantar, não estava no ar. Estava dentro dele. Ainda que ele não aceite, estava dentro. Quem plantou em mim essa força, essa vontade de colocar pra fora a dor do mundo foi Dona Norma.
Minha vó era boa de dar apelidos que ninguém nunca utilizaria senão ela. Sempre me chamou de "Guinho". Segundo ela vinha de Tiaguinho. Dá pra contar nos dedos de uma mão às vezes em que ela me chamou de Tiago. Memórias muito raras e que minha mente escondeu, pois isso só aconteceu em momentos complicados. Com ela conheci e amei o São Paulo Futebol Clube, paixão eterna enquanto dure minha existência. Ouvi por milhares de vezes aquelas histórias de quando ela se tornou São Paulina e de quando o São Paulo foi campeão do mundo e ela, sozinha em casa, gritava da sacada "campeão do mundo! São Paulo!" Ela dizia que queria me ver jogar no tricolor e que eu iria escrever "Guinho" na camisa. Isso jamais aconteceria visto que sempre fui um perna de pau grosseiro e indelicado com a bola.
Nas festas de fim de ano, sem beber, minha vó dançava. Boa no samba, boa no rebolado, boa no funk. Ela descia na boquinha da garrafa todos os anos, deixando os convidados sempre boquiabertos. Com exceção dos fins de ano, nas copas do mundo, ela saía na rua com peitos e bundas de borracha, mas que, de fato pareciam os dela, assustando motoristas que voltavam pra casa após às vitórias do Brasil. Era da farra, gostava de uma boa bagunça e gostava de ser o centro da baderna. Nunca teve tabus, nunca. Falava de sexo de maneira tão aberta e pornográfica, com frases que até hoje alguns amigos meus se recusam a pronunciar.
Religiosamente se dizia evangélica. Não frequentava nada nunca. Contava que no tempo dela os crentes sofriam preconceitos, que os cultos eram nas casas e que o irmão dela foi o primeiro a enfrentar o pai português e se tornar evangélico. Norma destilava seu ódio contra a igreja católica, os deuses de barro e os bezerros de ouro, contar pecados pro padre, ria da chamada excomunhão e contava uma piada portuguesa sobre isso. Também odiava pastores larápios, um dos mais xingados por ela era o tal Valdomiro Santiago, que tinha acabado de se autoproclamar "apóstolo" e aí que ela descia a lenha e colocava ele abaixo de cu de cachorro dez graus.
Era tudo um show de ilusionismo onde a gente assiste, ri e aplaude. Canta, dança, escuta. Ela dominava as artes e trazia pra varanda um mundo antigo mas potente, cheio de possibilidades. Norma me fazia sonhar, me fazia querer o seu amor de qualquer forma. E eu sempre quero, mais e mais o amor dela.
Sempre fui muito egoísta em relação aos domingos com ela, nunca gostei que chegassem visitas diferentes das comuns dominicais. Ciumento. É que quando chegava alguém de fora eu aprendia menos. Aprendia menos canções daquelas maravilhosas, que minha vó tem uma pra cada palavra. Aprendia menos frases e ditados que minha vó tem uma pra cada situação. Absorvia menos daquele convívio que me formou tão profundamente e moldou quem eu sou hoje. Me lembro que quando anoitecia e ia ficando escuro e silencioso como são os domingos, ia me entrando aquele frio na barriga de angústia e medo, era sempre horrível. Eu nunca queria que o domingo acabasse, eu não queria encarar a escola segunda feira de manhã. No fundo, hoje eu sei, queria que aqueles domingos durassem para sempre.
Hoje aqui, na madrugada de domingo que escrevo sobre você, minha velha, peço pro vento te levar meu beijo e te contar que eu te amo. Ando louco de saudade.