Embalado por sons latinos, movido a álcool e pelo talento de dirigir seu UNO duas portas, onde Gustavo chega com sorriso de vitória do Santos, arrasta consigo a simpatia de outras torcidas. Provavelmente o conheci na famosa Ágora que os gregos recusariam. Essa, bem mais importante, tem filosofia peculiar, sociologia da linha malandra de Seu Zé, copos de plástico frágeis e lastimáveis circunstâncias cotidianas. Me lembro que nosso personagem se adaptou tanto com o ambiente que passava a impressão de um camaleão no habitat de sua natureza. E estava em casa. Camisa estampada e desabotoada, no pescoço um cordão de pedras, bolando paieiros com a perna cruzada de Cazuza e fazendo amigos em minutos.
De longe, era notável sua ligação com as biroscas mais vagabundas, do copo sujo e banheiros de forte odor. Enxerguei nele uma boêmia que não se encontra, artigo que não se imita nos bares sofisticados. Quem nos apresentou foi Beatriz, sua companheira. O casal deve ter vindo da mais profunda raiz nipônico-italiana, de um encontro de outras vidas entre o Japão e a Itália, numa imigração forçada de navio destino América Portuguesa.
Certa feita, nós todos nos encontramos numa Adega ourinhense, para depois ampliar nosso destino sentido Piraju, onde passaríamos alguns dias numa colônia italiana com cafés de alta qualidade produzidos numa cozinha brasileira, que era a própria casa de Beatriz. Que lugar!
Mas voltando para Ourinhos, uma série de doses de Uísque (assim, com título nacional) desceram quentes acompanhados de uma duvidosa batata frita e cercados ao som de Marcelo D2 procurando a batida perfeita que me fizeram bater a nave e perder a memória de tudo que houve no caminho (para um bêbado, curtíssimo) entre nossa localidade e a cidade-destino. O que me recordo na saída madrugosa é de músicos, um com bandolim e a outra com um clarinete e uma flauta divina, fazendo um choro que chamavam as entidades para acompanhar tamanha beleza, capazes de buscar quem mora longe.
Nesse ápice de magia, acordei diante de um rio. Gustavo e João desceram do carro, tiraram a roupa e pularam, assim, da beira da estrada para recepcionar à chegada a Piraju. Jorge e Bia optaram por não se molharem no princípio de dia pirajuense.
A mágica estava pronta. A poesia estava escrita. Antes, um jantar de Vó oriental, farto e saboroso, com direito a repeteco que o Jorge lambusou a camisa africana. Mas os anfitriões reservaram o melhor para o balcão do memorável Bar do Chumbo, onde serviram Guacamole com Doritos, doses qualitativas de Vodka com hortelã preparadas pelo Pedro, cachaça artesanal e água colorida aos entendedores.
Nosso nipônico abrasileirado personagem, moldado nos respingos provocados pela queda d'água de Foz do Iguaçu, fã incondicional de chá de boldo na mesa dos copos, continua conquistando posições de destaque nos pés sujos com a unha bem feitinha, abrideiras e saideras não necessariamente nessa ordem, papos cabeça sobre Gal Costa e a musicalidade caribenha, papos furados de não-monogamia e amores correspondidos, papos que valem a foz divina de Gustavo Japonês.