Manhã chuvosa, busco algum aquecido refúgio nos tradicionais pés-sujos. Sentado e desatento, avisto, correndo da e na garoa, um homem que parece o fantasma que deve assombrar os estabelecimentos outrora de chão batido. Velho conhecido dos bares quase sofisticados do município, João Antônio já tinha longa carreira em cervejas, mesas, cinzeiros e bauretes como dizia Tim Maia. Homem alto, negro, forte. Ninguém na cidade ao menos conhecia seu nome. Era chamado Tigresa. Por todos, absolutamente. Imagino que desde o berço, no momento em que saiu em direção a luz o doutor caprichou: está fadado a ser Tigresa e postulará com orgulho e braveza o vulgo que lhe cabe.
De certo modo, Tigresa já tão habituado em ser, não demonstrou jamais problemas com seu nome de guerra. Problemas ele demonstrava sim: com o álcool. Normalmente, Tigresa era um homem dócil, fácil de lidar, calmo e risonho. Muito amigo. Muito trabalhador. Normalmente disse eu, portanto sim, significa quando bebia e nunca foi pouco.
Os botecos disputavam para ter o Tigresa em seu escrete. Atrevo dizer que ele era talvez o homem mais bem recepcionado pelos donos das bodegas, como uma verdadeira atração, um artista que lida sem amarguras com seu ofício, um artesão dos canais de cevada e lúpulo e com admiradores que vinham sorrindo em sua direção dispostos a lhe estenderem as mãos, saudando sua ilustre presença.
Feito complicado de se conseguir num alto número de bares, com uma considerável variedade na clientela. Ainda mais porque todos tinham ciência que Tigresa jamais pagaria uma dose pra ninguém, jamais. Um cigarro solto? Nunca. Nem pro seu pai que ele não teve a sorte de conhecer, nem pro seu avô, nem pro seu amigo mais íntimo, nunca jamais. E se orgulhava da junção: bem quisto sem nunca se vender.
Todos homens com esse perfil tem, evidentemente, uma série de defeitos. Claro, não para nós. Para a língua da comunidade. Um dos vícios, além do descrito, que Tigresa tinha era levar as meninas pro cemitério. Noitadas com violão, rock and roll e enrosca-enrosca nas paredes de capelas, a ponto das blusas pretas que os roqueiros sempre vestem com aquelas correntes voltarem cheias do cal. Os rockeiros tem costumes peculiares que eu não domino absolutamente nada para descrever a vocês, mas aposto que todos imaginam.
Nesse devaneio de pensamento, avisto o Bode que pega um casco e se senta comigo. Comento com ele que estava nesse exato momento lembrando do Tigresa. Percebo no olhar que Boda se emociona ao recordar. E diz: "não me esqueço do dia que embarquei numa aventura fúnebre com esse maluco. O cara era fissurado em cemitérios." E segue uma dramática narrativa da noite em que, já temperados e flambados no conhaque com mel e sem destino depois da derradeira hora que os garçons começam a recolher as mesas (que são verdadeiros divãs para a nossa tradicional psicologia brasileira) que se aventurou a entrar no cemitério com o especialista.
O Tigresa ia desabrochando contos eróticos e narrava acontecidos sexuais em cada capela, apontando com o dedo as paredes que foram testemunhas de seu prazer incompreendido. "Só em capelas!" Ele afirmava prontamente, o que deixa no ar as razões do por que seu fetiche não lhe permitia deitar em túmulos. Não para por aí, meus caros. Bode narrou que teve uma época que Tigresa entrou numas. Vai saber. Por algum motivo, dizia-se na cidade, ele havia tacado fogo na própria roupa e que a menininha que lhe espalhou pras outras jovens que depois dessa perdera o tesão.
Tudo isso, caros, já faz muito tempo. Ouvi dizer que o Tigresa virou pastor em São Borja, curiosamente onde está sepultado Getúlio Vargas.
Informação relevante: Em um túmulo!