sábado, 26 de novembro de 2022

O PALETÓ DE PAUS DO RUBINHO

      - Ivone, me empresta uns 30? Te pago segunda. Acabei de entrar na traseira de outro...

    Nilton era mais um caso de internação. Não pelos motivos que o caro leitor deve supor, pelo conteúdo até agora apresentado, mas por motivos colaterais relacionados. Se você tem um vício, cuide dele. No fim, a sensação de poder que nos dá ao ter, de alguma forma algo, ainda que um vício, vale. A situação que o malandro se enfiou era séria: três filhos pra criar.

    Deveria ter posto criar entre aspas. Os filhos ficavam mesmo pra Luci se virar, alimentar, limpar, lavar, educar, amamentar, trocar, pentear, vestir, pagar, curar, ninar e todas as outras funções de uma mãe que a te pariu esteve submetida com algum êxito. Nesse país esse nem sequer é problema. E nem o vício. O problema de quem empresta dinheiro miúdo de muita gente é que a fama corre com 30 cavalos de potência, mas eram os cruzeiros que davam pra arrancar de cada marmanjo que o cruzasse. Quando os marmanjos manjaram, a saída foi ir pra família. Pede pra cunhada, pede pro primo, pede pra vovó. Pra mãe dele não pedia, a finada senhora deu o toco na hora de juntar as sandálias. Niltinho emprestou pra pagar o velório e você já sabe... Só não emprestava de agiota, dessa água nunca bebeu. Cão bebe até a água que reflete a lua na poça da rua mas não come lavagem. Ele era por aí...

    Rubens não, ah Rubinho. Rubinho tinha juízo. Sempre pobre, pouco ambicioso, não bebia, não fumava, de vez em quando metia, mas metia mal. Tinha uma casa própria, lá onde o Judas perdeu, só que tinha. Foi casado pouco tempo. Ficou viúvo. Só anos passados que ele frequentou umas boates duvidosas, justiça seja feita ao Rubinho, poucas vezes e eram visitinhas rápidas, consoladoras e sem álcool e sem tabaco e com pra-mil. Fazia mal pro coração, mas Rubinho não demonstrava importância.

    Rubinho não aparentava ter problemas de saúde, era sujeito calmo, demonstrava humildade e gostava de comprar picolés das crianças que passavam vendendo com aqueles apitos agudos que vinham nos sacos de bala. Uma vez Niltinho e Rubinho se conheceram. Era aniversário de uma criança, filha da tia, prima do outro, um troço assim. O que importa é que os dois estavam presentes e se trombaram várias vezes na hora de buscar bolinha de queijo, tanto que uma hora a conversa foi inevitável

    - Gosta de Bolinha né?

    - Deu pra ver que eu gosto um pouco.

    - Aproveita que é de graça.

(bem papo fuleiro de quem só quer pegar o teu e tchau)

    - Não como salgadinhos à vontade deve ter um século...

    Rubinho abaixou os olhos e fitou Nilton com cara de pena. Era a brecha que o sistema queria... Nilton - sempre com cartas na manga - saiu de lá com 300 no bolso, garantiu a noite e como de costume, quando descolava não aparecia em casa. Ele ficou de pagar assim que fosse contratado, contou uma história de entrevista, empresa boa, horário bom e o escampau. Pobre Rubinho... Caiu no conto do vigário. Ou do Larápio. Rubens tinha mania de acumular os problemas e evitar pensar neles, homem de bom coração (não no sentido literal mas sentimental) só que uma hora, nas noites angustiantes os problemas vinham, surgiam vestígios de pontadas no peito e batimentos velozes... Essas noites eram mais difíceis de atravessar.

    Batimentos velozes tinha Nilton quando colocava seu vício para ser exercido. O problema era quando ele era executado dentro de casa. Com as crianças e Luci assistindo. Tinha uma regra exclusiva: as crianças não podiam chorar, isso atrapalhava o andamento e incomodava muito os "amigos". Sobrava pra Luci mimar as crianças enquanto os homens se perdiam, juntavam dinheiro, somavam e dividiam. Um tempo depois, quando a situação já estava ficando insustentável Nilton deixou as noitadas em casa e começou a frequentar outro ambiente, que Luci ainda não sabia qual era. Naquela tarde, o telefone de Ivone tocou e Luci atendeu: Rubinho morreu. Parada cardíaca. Não demorou muito para que as duas estivessem de roupa prontas para ir até a funerária abraçar a família e prestar as primeiras condolências às pessoas mais próximas do defunto. Como o corpo já tinha sido liberado no hospital, foram direto para a funerária que iria preparar o corpo. 

    Chegando lá naquele ambiente leve e agradável, as duas passaram pela porta de vidro, não vendo ninguém na recepção, viraram pra esquerda e tcharam! Sentados na mesa com suas cartas em mãos estava Nilton, com seu vício no baralho, jogando dentro da funerária. Aí não. Esse local de preparação para o cortejo final, onde algodões são enfiados nos narizes e ouvidos, dente de ouros e sapatos são furtados deve ser respeitado por todo bom cristão e ainda que não cristão, por todos que lavam os túmulos nos dias que antecedem o finados para demonstrar cuidados e carinhos com os falecidos da família (para os outros familiares notarem). Ele recebeu os tapas merecidos das duas, acaloradas e nervosas com tamanho descaso. O vício de Nilton sempre foi o maldito baralho, todos sabiam e dessa vez as cartas não estavam marcadas. Mas na funerária, aí já era demais. Expulso de lá antes da chegada do corpo de Rubinho, senão estariam na missa de corpo presente dos desenganados três dos que Nilton mais devia. E espiritualmente entraria na mesa o três de paus, o sete de espadas e a coroa do rei. Sem dinheiro, sem valetes e sem compaixão, esse ocorrido mariliense antecede a despedida derradeira do homem de coração frágil que era Rubinho. Lamentável.