Sexta-feira fui no bar do Dunga, com a intenção de reclamar da vida, reclamar da escola, reclamar dos alunos e reclamar de qualquer coisa que tenha me causado o mínimo de desconforto durante a semana que eu só trabalho nos horários dos jogos e não posso acompanhar a Copa do Mundo de Futebol que está acontecendo lá onde o Judas perdeu... Por sorte, os professores e estudantes brasileiros estão salvos pela Pátria de Chuteiras e são liberados para assistirem o jogo do Brasil tomando aquela amarelinha gelada, vestindo aquela amarelinha desbotada e pouco animadora nos tempos que antecederam o primeiro jogo do Brasil, explicarei minhas angústias.
Eu tenho o costume de me preparar para a copa do mundo. É coisa séria, evento importante, ritual de reunião amiguifamiliar, tem toda uma cosmologia, sessões de benzimento, misturas de sacro com profano e aquela liturgia característica da região do Brasil que você vive, que eu não sei qual é mas tem, existe. Esse ano comprei duas camisas da entidade sacrossanta chamada seleção brasileira, detentora das maiores glórias e dos dois maiores fracassos da história do futebol. Fato é que tanto as vitórias quanto as derrotas moldaram a nação, como você sabe, Nelson Rodrigues descreveu, apontou e grifou. Nós estamos tendo sérios problemas pra abraçar a seleção brasileira nesse ano. Um deles, não é de hoje, é a apropriação do símbolo máximo nacional pelos nazistas. Estou falando da bandeira do Brasil? Não! Estou falando da camisa da seleção. Esse é o maior símbolo que reuniu milhares de brasileiros em torno de uma única causa: trazer a taça. Nunca a bandeira do Brasil teve esse papel unificador e pacifista. Como a amarelinha desbotada foi durante muito tempo uma unanimidade, os nazistas se aproveitaram para utilizar da imagem positiva que ela tem na sociedade brasileira. Por isso, nesse ano, escolhi uma azul e uma branca para acompanhar a Copa do Mundo. Branca? Pois é, pode até estar na moda e é utilizada pelos não-nazistas brasileiros para não serem confundidos, mas é a camisa do azar, da tristeza, da melancolia e do silêncio. Principalmente o silêncio. A derrota de 1950 só não ecoa mais alto porque derrubaram o Maracanã, palco da desgraça na copa do mundo, para que houvesse outra copa do mundo, dessa vez pros ricos.
Segundo ponto de conflito com a brasilidade é a época. Tenho certeza que essa copa vai atrapalhar o Natal de cada um de nós caso nossa entidade sacrossanta saia derrotada, o que é culpa em número, gênero e grau da dona FIFA e seus mandos e desmandos. Escolheram um país sede onde os homens não podem dar, as mulheres não podem demonstrar afeto e os alemães não podem apreciar o melhor de sua cultura: aquele líquido amarelinho (o deles é mais escuro que o nosso). Se nós tratamos a Copa como um evento de transição, um ritual de mudança de hábitos e costumes e esse ritual atrapalhar outros tão importantes quanto para nossa cultura como natal e ano novo será um crime imperdoável da FIFA com esse povo que ensinou os outros países a jogar futebol para que o evento mundial dela tivesse a mínima graça. Terceiro: nosso craque, camisa dez, decidiu ficar do lado dos nazistas e prometeu um gol para eles, que não sairá tão cedo. Isso, gera insatisfação entre os vencedores do pleito eleitoral e satisfação entre os derrotados não-assumidos. Incomoda por conta da unidade popular, que agora se divide com um progressista craque chamado Richarlison, esse veio pra trazer paz mas ao mesmo tempo trouxe a espada.
Tudo isso foi esquecido no momento que o Brasil entrou em campo com suas cores, seus anseios e suas feridas. O sentimento foi de paz e de saudade de torcer por um país que chutou o nazismo pra escanteio, voltou a sorrir para seu próprio povo e sorriu graças aos pés dessa uma meninada da nova geração boa de bola. Já no primeiro jogo, esses meninos que nasceram nessa fábrica mágica de produzir jogadores de futebol em campos de várzea, abraçaram nossa nação com uma atuação segura e eficiente. Ali, todos nós, vivemos a plenitude do velho Brasil de volta, em todos os sentidos.
E o bar do Dunga com isso? Já fugiu do assunto... Não, calma. Estavam na mesa ao lado seu Arlindo e seu Silvio, entidades (vivas) que habitam por lá. Eles comentavam sobre a seleção inglesa, apontada pela mídia como uma das favoritas para levar o mundial, causo que ocorreu só uma vez e sob circunstância duvidosa. Por enquanto, os ingleses venceram o primeiro jogo de maneira convincente, mas naquela noite tinham penado, num empate feio com os Estados Unidos. Os comentários dos velhos não são recomendados para as crianças, então tirem-as da sala:
- Falam que Copa do Mundo é só timaço, timaço o caramba! Estados Unidos e Inglaterra parecia um jogo Palmeira e Corintia. Jogo sem graça, amarrado, feio pra caralho. Depois vem falar que Copa do Mundo é top, top o cacete rapaz, jogo feio do caralho!